
Você conhece alguém telhudo? Talvez seja você um… rsrs. Eu sou!
O bacana das nossas expressões idiomáticas, além de expressarem ideia dum modo irreverente, é que elas podem nos oferecer uma interessante história sobre sua origem. É o caso, certamente, de dar na telha. Sabe o que significa?
Olha só. Uma matéria do portal Terra, de junho de 2009, afirmou que “Hebe Camargo recebeu ordens de Silvio Santos de que não pode falar nada do que der na telha”. É que a apresentadora já colecionava 32 processos judiciais. Por isso, teria que falar em seu programa só o que estava no teleponto. Eita!
A notícia é antiga – os apresentadores nem estão mais entre nós –, mas a ideia de que a cabeça ou a mente podem ser referidas como telha é mais ainda.
Dar na telha ou dar na veneta é ter uma ideia que ocorre repentinamente, um impulso, e ‘fazer o que lhe dá na telha’ é efetivar essa vontade sem pensar nas consequências, fazer o que bem se entende sem maiores reflexões. É o mesmo que dar na veneta.
No século XIX, telha era muito usado na linguagem familiar como ‘mania, costume excêntrico’. O poeta português Guilherme Braga, em O mal da Delfina (1869) escreveu estes versos: “pude vêr que Delfina anda com telha/ e que o namôro, n’ella, é já mania.”
Ter telha ou ter telhas era uma forma de dizer que o sujeito era maníaco por algo. A quem tinha apego exagerado ou incontrolável, dizia-se que sofria de telhice, eh, eh, eh!
Ah, o mais legal: havia um expressão sensacional que era Fulano não tem telha, tem telhado. Não era então só uma mania (telha), mas uma grande mania. Aí, se dizia que o indivíduo era telhudo. (No meu caso, por Etimologia). O escritor português Eça de Queirós, em Os Maias (1888), por exemplo, chama três vezes o personagem Castro Gomes de telhudo.
Estando a telha nas ideias, há também a expressão ter uma telha a menos. É o ancestral do nosso atual ter um parafuso a menos ou ter um parafuso frouxo. Na Colômbia, se diz tener la teja corrida (ter a telha solta) e, o que acho engraçadíssimo, estar malo del eternit (estar mal do Eternit – uma marca de telhas).
As pesquisas etnográficas indicam que o sentido de ‘mania’ e ‘mente’ para telha tem origem açoriana. O linguista português Leite de Vasconcelos explicou, em 1925, que “assim como a telha cobre a parte mais alta da casa, assim se supõe que a mania existe na cabeça, parte mais alta do corpo”.
Hoje, o sentido figurado de telha deu uma boa mudada. No romance ‘Triste fim de Policarpo Quaresma’ (1915), de Lima Barreto, o Dr. Florêncio afirmou que Policarpo tinha mania de leitura, que lia muito porque tinha “telhas de menos”, ou seja, era um amalucado. Atualmente, quando se diz que alguém tem tenhas de menos, logo se pensa num calvo, o pouca-telha. Com o tempo, a telha passou de dentro para fora do crânio.
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📚 Referências: Diccionario prosodico de Portugal e Brazil, por Antônio José de Carvalho e João de Deus (1895); e A barba em Portugal: estudo de etnografia comparativa, por Leite de Vasconcelos (1925).
📸 Figura: ChatGPT (ago. 2025).
🗣️ Sugestão: Cláudia Fuina Miranda.
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