Rio Grande do Norte e do Sul? Por quê?

Numa coisa o Rio Grande do Norte e o Rio Grande do Sul concordam: empregar um gentílico extenso por causa do nome do estado não está com nada. (O Mato Grosso do Sul descorda, rsrs.) Nada de rio-grandense-do-sul e rio-grandense-do-norte ou sul-rio-grandense e norte-rio-grandense (apesar de serem palavras devidamente dicionarizadas), os nascidos no RN e no RS gostam mesmo é de se apresentar como potiguar e gaúcho.

Apesar de estarem a 2900 km distantes um do outro, os dois estados compartilham nomes parecidos, com a evidente diferença geográfica de que um fica ao norte e o outro ao sul. Se em seus nomes ambos indicam cursos d’água de dimensões significativas, que rios seriam esses?

O primeiro Rio Grande a surgir foi o da região Nordeste. Numa expedição de 1501, os exploradores portugueses chegaram à foz onde hoje se encontra a cidade de Natal, capital do RN. Os indígenas conheciam o rio pelos nomes tupis Potigi, Potingi, Poteingi ou Potiyi – não se sabe ao certo –, que significa ‘rio dos camarões’.

Os lusitanos, no entanto, viram mais que camarões naquele estuário. Com a navegável profundidade de  30 m, era notório que barcos de todo tamanho poderiam subi-lo dezenas de quilômetros e ter acesso ao sertão. Por isso, nomaram-lhe Rio Grande.

Os corsários franceses já sabiam dessas qualidades e o utilizavam pesadamente para negociar pau-brasil com os indígenas mais adentro do continente. Com tantos franceses rondando a costa brasileira, Portugal se esforçou em povoar a colônia. Foi aí que instituiu o sistema das capitanias hereditárias em 1534.

Por causa do rio, a área que se estendia do rio Jaguaribe (CE) à baía da Traição (PB) foi denominada Capitania do Rio Grande. Para proteger a costa e a entrada do rio Grande, Portugal construiu a Fortaleza da Barra do Rio Grande (depois, Forte dos Reis Magos), em 1598. No ano seguinte, em 25 de dezembro, foi fundada Natal, que inicialmente chamada Cidade do Rio Grande.

A essa época, Portugal já rondava a área do atual Rio Grande do Sul, mas, pelo Tratado de Tordesilhas, estabelecido em 1494, o Brasil tinha a região da atual cidade de Laguna (SC) como limite meridional. Só que os portugueses desejavam estender seu domínio até o Rio da Prata e, por isso, ignoravam o Tratado mais que propaganda do YouTube. No início do século XVI, já zanzavam pelo litoral gaúcho, mas sem ocupações permanentes.

Em 1531, o português Martim Afonso de Sousa (que viria a ser o primeiro donatário da Capitania de São Vicente), junto a seu irmão, Pero Lopes de Sousa (donatário da Capitania de Santana), estavam numa expedição ao rio da Prata. Nela, encontraram aquela “pontinha” que vemos no mapa na costa do RS, a que Martim homenageou seu irmão, nomeando-a barra de São Pedro.

O que chamamos atualmente de lagoa dos Patos (ou, mais adequadamente, laguna dos Patos) era entendido como um grande rio, ganhando então o nome de rio de São Pedro. O cartógrafo holandês Pierre Desceliers, no entanto, em 1550, registrou em seu mapa o “rio” apenas como Rio Grande.  Por tudo isso, nos mapas dos séculos XVI, XVII e XVIII, o nome oscilava entre rio Grande, rio de São Pedro e rio Grande de São Pedro.

Portugal não parava de arrastar a asinha para os pampas, que legalmente pertenciam à Espanha. Chegou a ponto de, em 1737, criar o Forte Jesus, Maria e José de Rio Grande, bem na ligação da laguna com o mar. Aa colônia militar deu início à vila e, depois, cidade de Rio Grande.

Com o Tratado de Madri, de 1750, Portugal finalmente regulamentou suas posses ao sul, criando então, em 1760, a Capitania de Rio Grande de São Pedro, com  Rio Grande como capital.

Tendo o Brasil então duas capitanias Rio Grande, foi natural que informalmente fossem tratadas por do Norte e do Sul – o que se constata em vários documentos antigos. A primeira a adotar o indicativo foi a capitania sulista. Em 1807, a Coroa portuguesa lhe deu mais autonomia e a renomeou Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul.

No mesmo ano, a Família Real transferiu a corte para o Brasil, para fugir da ameaça napoleônica. Ao regressar a Portugal, em 1821, D. João VI resolveu dar mais liberdade administrativa ao Brasil e transformou as capitanias em províncias. Foi esse o ensejo para oficializar a diferença no nome dos dois Rios Grandes: Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e Província do Rio Grande do Norte. Com a Proclamação da República, em 1889, as províncias passam a estados. Nisso, São Pedro é chutado para escanteio e nome do estado sulista se reduziu a Estado do Rio Grande do Sul.

Uh! Como que não aproveitaram a oportunidade para renomear o Rio de Janeiro como Rio Grande do Meio?

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📚 Referências: Pequena história de Pôrto Alegre, por Walter Spalding (1967); Nomes da terra: geografia, história e toponímia do Rio Grande do Norte, por Luís da Câmara Cascudo (1968); e Quando o Rio Grande virou Rio Grande do Norte, por Lenin Campos Soares, no blogue Natal das antigas (set. 2019).

🖼️ Imagem: ChatGPT (ago. 2025).

🗣️ Sugestão: Wellen Itikawa.

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