O que significa ‘pluribus’?

Enquanto os apaixonados por séries de ficção científica aguardam as novas temporadas de Ruptura e O eternauta, o Apple TV+ nos presenteou com uma história apocalíptica superlegal: Pluribus.

Só que em vez daqueles fins de mundo destrutivos e terríveis, Pluribus se passa num mundo em que a humanidade, tomada por um vírus extraterrestre, se une numa única consciência coletiva, exceto treze humanos, dos quais se destaca a protagonista, Carol Stuka, uma escritora mais pessimista que Dom Casmurro, Lula Molusco e Charlie Brown juntos. A humanidade finalmente se torna um conjunto de união e felicidade, mas às custas da perda do livre-arbítrio e da autonomia.

Criada por Vince Gilligan, o mesmo produtor das sensacionais Breaking bad (2008–2013) e Better call Saul (2015–2022), Pluribus tem um título igualmente intrigante. Eu, que entendo mais de Etimologia e latim do que dramas cataclísmicos, fui até o fim do fundo para revelar a origem do termo. E onde está? Acredite, numa antiquíssima receita ensinada pelo poeta romano Virgílio. 😮

Pluribus é uma palavra em latim que significa ‘de muitos’. É a palavra plus (mais), no plural, declinada no caso ablativo (quando se indica circunstâncias; de origem, neste caso). Estamos bem familiarizados com o radical pluri- (mais, muitos) em termos como pluralidade, pluricelular, pluridisciplinar e plural.

O termo pluribus, do título da série, vem da expressão latina e pluribus unum, que significa ‘de muitos, um’. O e inicial aí é uma forma apocopada de ex, que significa ‘de’, com o sentido de origem. Vemo-lo em expressões latinas do juridiquês – como ex jure (de direito), ex lege (por lei), ex mandato (em razão do mandato) e ex officio (em razão do cargo).

E pluribus unum traz o sentido de coletividade em alto nível, da união que transforma vários num corpo só. É o lema tradicional dos Estados Unidos (ah, e do município de Mongaguá, no litoral paulista), adotado pela união das Treze Colônias originais, que juntas formavam uma nova nação unificada. A expressão está no anverso da moeda de meio dólar.

Em 1776, o artista Pierre Eugene du Simitiere propôs que a frase constasse no Grande Selo dos Estados Unidos. Além do significado bastante pertinente, o lema e pluribus unum tem treze letras (confira aí, rsrs).

À época da Revolução Americana (1765–1791), a expressão já era bem conhecida pelos literatos norte-americanos. Constava na página inicial da coleção anual de doze edições da revista mensal londrina Gentleman’s magazine, a primeira revista inglesa (criada em 1731).

A ideia da unidade a partir do coletivo, entretanto, é muito mais antiga e perpassa vários povos e tempos, desde pelo menos o século V a.C., com o filósofo grego Heráclito, que escreveu “ek pánton hen kaí ex henos pánta” (de todas as coisas uma e de uma todas as coisas). Sua ideia era a de que a realidade é um sistema dinâmico entre unidade e multiplicidade, em que todos os elementos do mundo se originam dum único princípio subjacente. Tudo é um!

Mas a expressão e pluribus unum, especificamente em latim, apareceu por primeiro no poema Moretum, de Virgílio, no século I a.C. O poeta escreveu sobre o moreto (moretum), uma iguaria da Roma Antiga, feita pelos camponeses. Era uma pasta parecida com o molho pesto, em que se misturavam arruda (ou outras ervas), alho e queijo seco triturados.

Eis o trecho: “it manus in gyrum: paulatim singula uires/ deperdunt proprias, color est e pluribus unus,/ nec totus uiridis, quia lactea frusta repugnant,/ nec de lacte nitens, quia tot uariatur ab herbis” (sua mão se move em círculos: gradualmente/ eles [os ingredientes] perdem seus poderes e, de muitas, surgem uma única cor/ nem totalmente verde, pois os pedaços leitosos resistem,/ nem branca como o leite, pois há grande variedade de ervas.)

Ooooou seja, assim como os ingredientes do moreto perdem suas propriedades singulares no preparado, a individualidade se perde na coletividade. Uh, é isso? Bem, a série Pluribus explora justamente essa ideia – eu que não sou besta de tentar discutir isso aqui.

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📚 Referência: The phrase “e pluribus unum” might have been lifted from Virgil’s recipe for pesto, por Olivia Rutigliano, na página Literary hub (set. 2020).

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