
O masculino plural cumpria bem seu papel de referência a grupos formados por diferentes gêneros. Não havia mal-entendidos. Dou um exemplo. Nas escolas de Educação Básica, geralmente, há uma plaquinha identificando a Sala dos Professores. Quando eu era aluno da Educação Básica, meus colegas e eu sabíamos que a maioria dos indivíduos ali dentro era do gênero feminino, professoras, e que o termo professores, da placa, jamais as excluiu.
No dia 15 de outubro, Dia do Professor, os alunos parabenizavam também as professoras, pois se entendia sem esforço algum que a palavra no masculino do nome da data comemorativa é neutra, não se refere só aos homens professores. Éramos crianças e compreendíamos bem que uma palavra no masculino pode ser usada de forma neutra. No feminino, não, nunca. O feminino, este sim, é o gênero marcado. Se houvesse o Dia da Professora, homem nenhum seria parabenizado.
Bem… por muito tempo, o masculino genérico serviu até que alguém cismou que as professoras não estavam representadas naquele substantivo plural masculino. Era hora de pô-las em destaque, disseram. Então, a placa foi trocada para “Sala dos Professores e das Professoras”, o que gastou mais tinta e deu mais trabalho para o pintor escrever sobre o batente da porta. No Dia da Professora e do Professor, as alunas e os alunos parabenizavam as professoras e, se sobrasse tempo e vontade, os professores.
Muita gente nem ousa mais empregar o masculino genérico. É preciso especificar: Sejam todos bem-vindos e todas bem-vindas. Feliz Dia dos Namorados e das Namoradas. Parabéns aos envolvidos e às envolvidas! Associação dos trabalhadores e das trabalhadoras de tal lugar. Prezados e prezadas clientes. Caros membros e caras membras do partido.
O incômodo em se demonstrar representatividade no gênero gramatical, que fez o feminino ter de constar nos plurais e coletivos, abriu precedente para ooooutra questão mais recente. O conceito de gênero social não binário, apresentado pela Teoria Queer, quer sua fatia do bolo.
Segundo uma pesquisa realizada pesquisadores da USP*, publicada em maio, estima-se que pouco mais de 1% da população brasileira se declara como não binária, ou seja, que não se enquadra apenas em masculino ou feminino. Então, como representá-los no sistema dicotômico da língua portuguesa, que gramaticalmente só apresentou até então masculino e feminino?
Parte dos não binários não liga para qual desinência lhe é atribuída, considerando-se contemplada tanto em palavras masculinas (ele é meu aluno) como femininas (ela é minha aluna). Maaas houve quem sentisse a necessidade de se estabelecer um terceiro gênero gramatical.
Então, surgiu a proposta de implementar outras terminações para além de -a e -o, parte duma linguagem conhecida como linguagem neutra. Repintaram aquela placa para “Sala das Professoras, des Professories e dos Professores”. No Dia da Professora, de Professore e do Professor, as alunas, es alunes e os alunos parabenizavam as/es/os professoras/professories/professres. “Pronto! Ninguém havia ficado de fora.” Será?
O problema é que grande parte da população não simpatiza com esse tipo de linguagem proposto e isso não reflete, necessariamente, algum preconceito não-binariofóbico. Há quem não veja motivos para a marcação de gênero nos plurais para além do genérico masculino. Há quem não entenda, não goste ou não concorde com a Teoria Queer (lembre-se: ela não é unânime). Há quem não queira ou não consiga mudar seu vocabulário masculino-feminino em prol do desconforto duma pequena parcela.
Há, inclusive, não binários que não concordam com a tal linguagem neutra por considerarem que ela mais exclui do que inclui, por quererem pertencer a todos, como todo mundo, e não ficar à parte, relegado num todes.
Para muitos, a antipatia por grafias como professore, alune e todes pode surgir antes da compreensão do conceito de não binariedade, tornando-se um obstáculo desnecessário à luta pela igualdade e contra o preconceito. O uso de termos como amigues acaba desviando o foco da discussão para o campo gramatical – e pouco se ganha com isso.
O problema, caro leitor , é muito mais complexo que simplesmente desejar uma altruística alteração de vocabulário por porte da população. Por isso, entender que a maioria dos cidadãos, por variados motivos, não comprará a ideia da terminação ‘-e’ como marca do não binarismo, deveria ser algo a se pensar para quem se preocupa, de fato, com inclusão.
📚 Referência: Pessoas não-binárias no mercado de trabalho: uma revisão integrativa da literatura, por Akira A. Galvão, Silvia P. C. C. Nova e Juh Círico, na RCCC, 2025.
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