
Dias atrás, recebi uma convocação dum órgão da universidade em que trabalho. Começava com “Prezadas/os membros do Conselho…”. Deixei de ler o restante da convocação e me questionei: aquele modo de se referir aos membros do conselho estaria correto?
Fui então pesquisar alguns documentos oficiais doutras universidades e órgãos públicos para saber o que o povo anda escrevendo como saudação. Prezados leitores, tem de tudo! Com espaço, sem espaço, com parênteses, barra, contrabarra, arroba… Na maioria, o gênero feminino vem em primeiro, o que parece ser tendência. E aí, está valendo tudo mesmo?
No dia a dia, em situações informais e textos não oficiais, cada um escreve como bem quiser. Se o interlocutor entendeu e aprovou a saudação, tudo certo. Se comunicou e agradou, é sucesso!
Agora, em contextos escolares, universitários, jurídicos, governamentais, empresariais, etc., especialmente em avaliações, espera-se que a escrita siga uma série de padrões gramaticais da língua que tendem a uma uniformização, que atenda à norma-padrão.
Essa norma prevê que, quando há gêneros gramaticais distintos, os substantivos e os adjetivos ficam no masculino. Se nos cargos de direção duma instituição, por exemplo, houver homens e mulheres, apresentar “prezados diretores” basta. Ir para além disso não passa de redundância.
Duns bons anos para cá, no entanto, fazer questão de pôr à mesa que há meninos e meninas na brincadeira virou parte do que muitos entendem ser a melhor forma de cordialidade ou do que consideram ser uma “linguagem inclusiva”. Popularizou-se com o ex-presidente José Sarney (1985–1990), que abria seus discursos com o famoso “brasileiras e brasileiros”, e vem se sedimentando em vários ambientes.
Independentemente dos motivos que levam alguém a se referir aos dois gêneros (assunto que já tratei noutras postagens), é bom que isso seja feito, então, da maneira mais correta. Há duas opções.
Opção 1: escrever tudo. Fica gramaticalmente correto, mas aumenta o tamanho do texto. Já pensou começar com “prezadas diretoras financeiras e prezados diretores financeiros” ou “caros trabalhadores autônomos e caras trabalhadoras autônomas”. Alguns duplicam essas palavras só na saudação; outros o levam para o texto todo, o que não sei se é lá muito interessante ao leitor.
Opção 2: parêntese. O uso dos parênteses atende bem à ideia de possibilidade de escolha de gênero: aluno(a), professor(a), caros(as) diretores(as), prezados(as) amigos(as). Mas nada de espaço entre a palavra e os parênteses, hein.
Fuja da barra. A barra oblíqua (/) geralmente traz a ideia de ‘escolha excludente’, com ela equivalendo a “ou”. Por exemplo, em “favor, trazer ao piquenique suco/refrigerante/chá”, subentende-se que se deve levar um dos três elementos. Por isso, uma saudação com ‘senhor diretor/senhora diretora’ até vai, mas, no plural, ‘senhores diretores/senhoras diretoras’ fica estranho, pois não engloba a totalidade de diretores.
Fica igualmente esquisito optar por ‘prezados/as’, para economizar nas letras, pois a barra só dá a opção de escolha entre palavras inteiras, não fragmentos. É como se estivessem escrevendo: “prezados ou as”. Estranho…
Usar contrabarra (‘caro\a amigo\a’) é pior ainda, pois ela não tem aplicação formalizada na nossa língua. Ela tem uso apenas na separação de pastas do MS-DOS (C:\Users\Rafael\Documentos) e nalgumas linguagens de programação.
O mesmo se pode dizer da arroba que tem sido usada para representar, por causa de seu formato, simultaneamente A e O. Então, propõe-se que ‘prezad@’ deve ser lido como ‘prezada e prezado’ e ‘car@s’ como ‘caras e caros’. Cabe salientar, no entanto, que o emprego da arroba para esse fim não caiu no gosto de grande parte da população, por o considerarem esteticamente desagradável, desconfortável à fluidez da leitura e um sério problema para disléxicos e usuários de programas de leitura.
Por fim e mais importante, é imprescindível analisar o gênero palavra que se quer pôr na saudação. Muita gente ficou tão preocupada em apresentar os dois gêneros que se esqueceu que a palavra ‘membro’ é unicamente masculina (‘o membro’, ‘prezado membro’).
Ainda que seja uma mulher, ela é ‘um membro’ de um conjunto. Não existe ‘a membro’ ou ‘prezada membro’. Isso seria tão esquisito quanto escrever ‘prezado pessoa’ e ‘caro(a) pessoa’. Até existe a versão feminina de membro, que é membra (prezada membra), mas é uma palavra pouquíssimo usada e que por isso pode causar mais estranhamento.
Enfim, todos os recortes da figura desta postagem estão com grafia gramaticalmente errada. Pela norma-padrão, só são considerados adequados ‘prezados membros’ e ‘caros membros’, o que facilitaria tudo e dispensaria a produção deste texto aqui.
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📚 Referências: Todos e todas, brasileiros e brasileiras, por Sérgio Rodrigues, na revista Veja (set. 2010); e Os usos da barra oblíqua e da barra invertida, por José Marques, na página Ciberdúvidas da língua portuguesa (abr. 2017).
🖼️ Figura: printes de saudações de vários documentos disponibilizados na internet.
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