
Sou paranaense. Apesar de viver em Viçosa, Minas Gerais, há 16 anos, eu ainda conservo meu sotaque caipira, que me entrega quando falo “poRR favoRR”, com meu característico R retroflexo. O pessoal daqui fala algo como /pôh favôh/.
Eu demorei a me adaptar a esse R meio sumido. Na minha primeira semana de aulas, uma aluna me disse meio tensa:
— Professôh, posso abrih a póhta? Eu tô sem ah…
— Como assim, sem A? – perguntei sem entender.
—Tá muito calôh aqui. Parece que tá me faltando o ah…
— Oh, agora entendi! O aRR! Pode abrir a poRta.
Gente.. Como pode? A palavra já é pequenina, tem só duas letras, e o mineiro ainda a reduz para um som só – pelo menos o mineiro do Sudeste de Minas. Bem, na verdade, ele só está seguindo a histórica tendência de encurtamento do termo. O nosso ar já teve mais letras e conta com uma evolução sensacional, de tirar o fôlego.
Os gregos da Antiguidade distinguiam dois tipos de ar: o superior, puríssimo, que ficava acima das nuvens, era o aithér (éter); o inferior, que respiramos, é o aér.
Quando aér está expressando relação de posse na frase (caso genitivo), aí muda para aéros. É daí que temos o nosso radical aero- em palavras como aeróbica, aerofólio, aeromodelo, aeronáutica, aeroplano, aerossol e o Aerosmith.
Aér chegou à península Itálica e ficou em latim como aer mesmo. No caso acusativo (quando a palavra está como objeto direto na frase), aer ficava como aerem. Foi esse aerem que, no latim vulgar, o povão simplificou como aere.
Com a evolução do latim, que foi se diferenciando em várias línguas na Europa, a pronúncia do E em aere foi sendo puxada para /i/. Ficou aire em galego, mirandês e espanhol. Basta lembrarmos da capital da Argentina, Buenos Aires. É do espanhol que importamos certos vocábulos como airar (tomar um ar, arejar), airoso (que tem um bom ar, boa aparência) e desaire (aparência deselegante, mau ar).
Em francês antigo, era também aire, mas a pronúncia foi comendo o E final da palavra. Hoje é air, pronunciado /ér/.
Com a conquista normanda da Inglaterra, no século XI, o francês antigo se tornou a língua das classes dominantes de lá, mas também se propagou entre as classes baixas. Nessa leva, muitas palavras francesas entraram no idioma inglês e foi assim que o francês antigo aire desbancou o inglês lyft. Se formos ver, em alemão, ar ainda é Luft.
Assim como o francês aire evoluiu par air, o inglês seguiu a mesma trilha. Hoje, nos é súper comum vê-la em termos como air fryer, airbag, Airbnb, air guitar, o Air Supply, o Air Jordan e a série The fresh prince of Bel-Air (Um maluco no pedaço).
Em italiano, o caminho foi outro. Lá na península Itálica, em vez do latim aerem, o acusativo de aer ficou por aera (por influência do acusativo grego, aéra). Aera se tornou area e por fim ficou aria em italiano – ah, e passou a ser palavra feminina.
Daí, em nossa língua, temos duas palavras derivadas: ária e malária. Ária é a parte da música clássica em que há um solo vocal (o som do ar da voz). Malária vem do italiano mal aria (mau ar), pois antigamente se acreditava que a malária era transmitida por um ar ruim vindo dos pântanos.
Na cidade de Cálhari, na ilha de Sardenha, havia uma colina em que o ar era considerado muito puro. Só que os aragoneses batizaram a montanha muito antes dos italianos e a nomearam bon aire, em catalão. Em italiano, o nome ficou Bonaria.
No século XIV, uma estátua da Virgem foi lá encontrada por navegantes que enfrentaram uma terrível tempestade. A imagem ficou conhecida por Nossa Senhora de Bonária e ela se tornou padroeira dos navegadores. Um de seus devotos foi o explorador espanhol Pedro de Mendoza, que, em 1536, batizou a cidade que fundou na América do Sul de Ciudad del Espíritu Santo y Puerto Santa María del Buen Ayre, a futura Buenos Aires.
Como os espanhóis, já tivemos aire no vocabulário português, mas acabamos dando mais valor a outra variante. O latim vulgar aere nos passou a aare, depois aar e por fim ar. Tudo isso para minha aluna pronunciar /ah/.
Bem, podia ser bem diferente. Já pensou se o Brasil fosse colonizado por poloneses, em cuja língua ar é powietrze? Deixo-lhes essa questão no ar.
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📚 Referências: Essai sur la formation et sur le développement du langage des hommes, por J. Azais (1845); e La traducción gallega de la Crónica General y de la Crónica de Castilla, por Ramón Lorenzo (1977).
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