Machado de Assis e a origem da palavra ‘panelinha’

Diz um antigo ditado italiano que il diavolo fa la pentola ma non fa il coperchio (o diabo faz a panela, mas não faz a tampa). É um jeito bacana de dizer que o capeta ensina a fazer maldades, não a escondê-las. Como a panela sem tampa, o pecador sempre deixa  algo à mostra.

Descobri algo assim ao procurar a origem do termo panelinha – aquele grupo fechado de sujeitos com interesses próprios. Na panela da lorota propagada por aí, não puseram a tampa!

Olha a história que vi rodando essas redes sociais. Disseram que a origem do termo estaria num clubinho do Bruxo do Cosme Velho. Num corte de vídeo de YouTube, encontrei uma explicação impressionante, que transcrevo aqui:

“Machado de Assis gostava tanto de socializar com outros intelectuais que, em 1901, passou a promover almoços informais com seus colegas mais chegados. Nesses eventos, os convidados discutiam os assuntos mais variados e trocavam ideias sobre os seus trabalhos enquanto se serviam duma panela de prata. Por isso, o grupo ficou conhecido como Panelinha. Quem não gostou muito foram aqueles que ficaram de fora da Panelinha. Eles começaram a acusar Machado de Assis de favorecer os membros da Panelinha. Por isso, o termo ganhou o significado de um grupo muito unido que exclui as outras pessoas.”

Que feio, Machadão! Manter um clubinho de favorecidos? Bem… Como o meu faro para detectar pseudagens anda bem aguçado, senti que era momento de pegar essa lorota e pá nela. (Ah, eu não resisti ao trocadilho.)

Há algo de verdade na historieta, mas essa panela aí tem alguns furos – e a dona de casa esperta já sabe que, desse jeito, a panela não pega pressão e o consumo de gás aumenta.

Por meio duma coletânea de cartas, é sabido que Machado de Assis passou a, no primeiro domingo de cada mês, almoçar ou jantar com seus amigos intelectuais para prosear em encontros gastronômico-artístico-literários. Mas isso começou em 1900 (e não em 1901) e não foi além de 1902.

Participavam da Panelinha nomes grandiosos como Olavo Bilac, Artur Azevedo, Joaquim Nabuco, Lúcio de Mendonça (idealizador da Academia Brasileira de Letras – ABL) e os filólogos João Ribeiro e Silva Ramos. Aliás, é bem possível que a criação da ABL, em 1897, fosse uma institucionalização da panelinha de Machado de Assis.

A formação de tal grupo para comer e charlar não foi iniciativa de Machado, tampouco era por ele promovido ou patrocinado. Na verdade, para cada evento, elegia-se um membro, chamado comissário, que cuidava de reservar o restaurante dum hotel e ornamentá-lo com algumas flores. O rodízio de comissários incluiu Machado vez ou outra, mas não passou disso. Quem criou essa sociedade gastronômica foi o jornalista Urbano Duarte, cofundador da ABL.

O grupo foi apelidado, sim, como Panelinha, mas chega a ser ofensivo aos participantes pensarmos que eles se serviam sempre duma (única) panela. Na verdade, o nome do clube informal proveio duma pequena caçarola de prata – presente do pintor Rodolfo Amoedo – que se tornou símbolo da turminha. Findo o almoço, ela era solenemente entregue ao novo comissário eleito.

Não foi tal Panelinha, entretanto, que iniciou o sentido de ‘grupo fechado’ para a palavra panelinha. Ao contrário, foram os literatos que se aproveitaram dum significado que já existia, pelo menos desde o século XVIII.

No Vocabulario portuguez & latino, do lexicógrafo português Rafael Bluteau, publicado em 1712 – muito antes de Machado de Assis pensar em nascer –, consta assim o verbete panelinha: “Dos que se frequentaõ, & praticaõ muyto huns com os outros, costumamos dizer, que fazem panelinha.”

Em 1789, Antônio de Morais Silva, explicou melhor no Diccionario da lingua portugueza: “Fazer panellinha com alguem: associar-se-lhe, praticar, e conversar familiarmente.”

Até então, panelinha nada mais era do que um encontro bacana entre amigos, para prosear à vontade. Maaaaas, certamente, foi a partir da Panelinha de Machado que o sentido de ‘grupo de intelectuais’ e ‘grupo que procura vantagens para seus integrantes’ se vinculou à palavra.

É claro que muita gente externa à Panelinha machadiana não gostava daquelas reuniões com comilança. Desafetos do grupo o acusavam de conluio, conspiração, conciliábulo, complô, camarilha, conchavo, conjuração (oh, tudo com C!). Fato é que Machado conversava em privado com os acadêmicos da ABL quando se tratava de escolher novo membro e exercia grande influência nas eleições. Normal, ué…

É como diz outro antigo ditado: “Junto à panela que ferve, não faltam amigos.” Só não gosta de panelinha quem fica fora dela.

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📚 Referências: Retratos e lembranças, por Antônio Salles (1938); e Antologia da alimentação no Brasil, por Luís da Câmara Cascudo (2015).

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