
E aí, tá com calor? Bate a bunda no tambor! Essa resposta não tem muita lógica, mas é justamente o efeito nonsense (junto à rima) que deixa o dito engraçado. Afinal, como alguém se refrescaria golpeando um tambor com seu traseiro?
É, não faz sentido, mas que te importa? “Coma torta”, responderia o Kiko, lá da turma do Chaves.
Esse tipo de fórmula empregada em larga escala para contextos genéricos é chamado de réplica popular. É aquela respostinha pronta, que atravessa as gerações pela tradição oral, geralmente aprendida na infância.
É nessa época que começávamos a tomar coragem para dar as primeiras respostas às provocações e zombarias dos colegas. Aí, as réplicas eram uma baita mão na roda! Ah, como era libertador responder ao amigo provocador com um sonoro e ritmado “no seu, que é mais azul e cabe um metro de bambu!”. (A metragem do bambu podia variar, rsrs.) Havia uma infinidade de réplicas e tréplicas com linguagem chula, algumas totalmente impublicáveis.
As réplicas, entretanto, não são coisa só de menino respondão. Do adolescente fanfarrão ao senhorzinho brincalhão, o povo sempre gostou de respostas automáticas jocosas. Por isso, junto aos ditados, parlendas, cantigas, trava-línguas e expressões idiomáticas, as réplicas populares fazem parte do folclore de um povo. Alguns têm mais de século; outros surgiram há poucos anos.
A maioria é rimada, como o famoso “cala a boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu”. Há réplicas sem rima, mas são poucas e dependem mais dos trocadilhos. Quando exclamam “ah, não”, não é difícil aparecer alguém replicando “anão é um homem bem pequeno”. Ou quando perguntamos o que o sujeito está fazendo e ele responde “nada”, já retrucamos um “quem nada é peixe”.
Assim como os ditados – aliás, como tudo na cultura – as réplicas podem sumir ou evoluir, pois pode ser que a graça não acompanhe mais a juventude. Por exemplo, uma antiga réplica portuguesa, com registros do século XVIII, brincava com quem dizia um pausado então. Era um soltar um então na narração, que o outro já interrompia com “Antão era pastor, guardava ovelhas e tinha um cão sem orelhas”. Devia ser engraçado na época.
O folclorista João Ribeiro registrou, em 1919, a réplica engraçadinha:
“— Jura?
— Pelo * da tanajura!”. Boa, mas nunca mais se ouviu falar…
Como exemplos de evolução, trago três conhecidas. Originalmente, replicava-se à pergunta “o que é isso?” com “chouriço; carne de porco não tem bicho”. Hoje, falam mais “chouriço para comer na hora do serviço”.
“— Tô com fome.
— Mata um home(m) e come!”
Antes, era “vá à rua de João Gome(s), mata um home(m) e come” ou “faz como o lobisomem, vai à rua, mata um homem e come”. Oh! Homicídio e canibalismo? Eita!
Até o famoso “Tá com frio? Bate a bunda no rio” já foi diferente. Ao escutar a reclamação “Que frio!” era comum replicarem “Deita-te num rio e cobre-te com o manto do teu tio”. Ah, eu prefiro a versão mais recente.
Sabendo que as réplicas andam meio esquecidas, a gente fica se perguntando: quais delas sobreviverão? Será que andaram produzindo umas novas?
Mas, e você, diga aí: qual réplica você falava (ou fala ainda)? Que réplicas não ouvimos mais?
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📚 Referências: O folk-lore (estudos de literatura popular), por João Ribeiro (1919); e Expressões chulas do palavreado juvenil, por Ulísses Passarelli, no blogue Tradições Populares das Vertentes (jul. 2014).
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