Parmênides à parmegiana

Depois de receber dezenas de mensagens pedindo para eu conferir a relação entre Parmênides e parmegiana, resolvi o mistério que aparece num tuíte do @desnecessauro. Concordando com o professor, que não há perguntas idiotas, a equipe técnica da Nomes Científicos se mobilizou para analisar as duas palavras à luz da Etimologia. (Ok, Ok… Foram só três mensagens recebidas e a equipe técnica sou só eu mesmo, mas bora lá!)

Muita gente chama de parmegiana o famoso prato que tem por nome completo bife à parmegiana ou filé à parmegiana (meu preferido!). É um filé bovino empanado e frito (bife à milanesa) coberto com queijo, molho de tomate e condimentos. No original, o queijo é o parmesão, mas geralmente os restaurantes usam o muçarela. Ah, e dependendo da receita, vai presunto na cobertura.

O acento grave em à é imprescindível pois a palavra substitui o italiano alla ou o francês à la. Bife à parmegiana significa bife feito à moda de Parma. Olha como a crase é necessária. Ela também aparece em bife à tirolesa, tutu à mineira, arroz à grega, virado à paulista e outros mais.

Pressupõe-se, portanto, que em Parma os bifes são feitos assim. O problema é que, de Parma, a parmegiana quase nada tem. É um prato tão brasileiro quanto a coxinha e o brigadeiro. É tão italiano quanto Thiago Lacerda interpretando Matteo em Terra Nostra.

O nome parmegiano foi dado para dar um ar italiano ao prato, baseado no queijo parmesão (da receita original), esse sim vindo de Parma, uma cidade do Norte da Itália. Em muitos lugares do Brasil, ele é simplesmente conhecido como bife ensopado com queijo. Pois é… Eu também acho que à parmegiana fica mais chique.

O nome parmegiana também é uma invenção brasileira. A palavra original é parmigiana, que em italiano significa ‘de Parma’. Como em português dizemos parmesão para quem nasce lá, misturamos parmesão (com E) e parmigiana (com I) resultando em parmegiana, palavra que significa ‘molho de tomate e queijo’. Por isso, temos também espaguete à parmegiana, frango à parmegiana, nhoque à parmegiana, etc.

O sufixo italiano -igiano é muito comum para designar os gentílicos de muitos lugares da Itália. Quem nasce em Treviso é trevigiano; em Asti, astigiano; em Lodi, lodigiano; em Valle Agricola, valligiano. Em português, parmigiano virou parmesão, mas podemos também usar parmano e parmense.

Parma é uma cidade com pouco mais de 200 mil habitantes. O que conhecemos mais de lá é o queijo parmesão (queijo duro, próprio para ser ralado), o presunto de Parma (delicioso e caro), a Universidade de Parma (de 1423, uma das mais antigas do mundo) e o diretor cinematográfico Bernardo Bertolucci, nascido lá.

Também na região de Parma surgiu a multinacional Parmalat, em 1961, como uma pequena empresa familiar de produtos laticínios. O nome, escolhido pelo fundador, Calisto Tanzi, veio da junção de Parma e latte (leite em italiano).

Já o nome da cidade também tem uma etimologia interessante. Vem de parma, um escudo redondo de origem etrusca, que passou a ser usado pelo exército romano na Antiguidade. Os etruscos (um povo que viveu na atual Toscana) se estabeleceram lá por volta do século VII a.C. Os primeiros acampamentos já eram chamados como Parma. Não se sabe, no entanto, se eles eram dispostos em forma redondo como o escudo ou, metaforicamente, serviam como um escudo contra os gauleses ao norte.

Falando em Antiguidade, já podemos ir para Parmênides de Eleia, um filósofo grego do século VI–V a.C. Ele foi o fundador da Ontologia, o estudo filosófico das propriedades comuns a todos os seres. Seu nome vem do grego antigo pará (ao lado) e méno (permanecer, ficar fixo), significando algo como ‘que permanece ao lado, leal’.

Enfim, etimologicamente, Parmênides e parmegiana não têm nada em comum. Sim, eu sei que a resposta poderia ter sido beeem mais curta, mas eu não poderia perder a oportunidade de lhe proporcionar uma viagem pela Gastronomia, História e Etimologia, né?

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📚 Referências: Formação da culinária brasileira, por Carlos Alberto Dória (2014); e Nomi di luogo etruschi o etrusco-latini in italia settentrionale, por Massimo Pittau (2018).

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