Página viraliza ao explicar etimologia de ‘viralizar’

Você já viu, nas redes sociais e nas notícias da internet, a quantidade de gente que “viraliza” por fazer qualquer bobagem? É sempre algo como “fulano coça a orelha com uma tampa de caneta Bic e vídeo viraliza” ou “sicrano viraliza com nova dancinha do tique-tique”.

🙄 (← Sim, eu gastei um parágrafo só para o emôji rosto com olhos revirados.)

Viralizar, segundo os dicionários mais recentes, significa ‘fazer com que algo se espalhe rapidamente e de forma massiva pela internet’. É ‘tornar viral; ter disseminação rápida e ampla’.

Exemplos bem concretos e recentes são o morango do amor, o bebê reborne, Felca falando de adultização, o Trap do trepa trepa, o labubu e os vídeos 30 vs. 1. Você os conhece todos?

Nos anos 60 e 70, para um novo produto ou um artista que causasse um entusiasmo grande  repentino, dizia-se que tal coisa era “a nova coqueluche” – ainda que essa doença contagiosa não seja causada por um vírus, mas uma bactéria, o bacilo Bordetella pertussis. Metáfora esquisita, né?

Um espalhamento súbito podia ser também a febre do momento ou a nova onda, mas qualquer expressão que já usamos nem de perto se equipara ao nosso atual fenômeno viral.

Engana-se quem pensa que viral é coisa recente. O adjetivo existe desde, pelo menos, 1944. Tinha o sentido inicial de ‘relativo a vírus’ ou ‘causado por vírus’; e vírus já existia há algumas boas décadas.

Em 1892, o botânico holandês Martinus Beijerinck já sabia que “alguma coisa” conseguia infectar as plantas e se replicar dentro delas. Sabia também que era menor que uma bactéria, pois conseguia passar em filtros onde células ficavam retidas. Beijerinck nomeou esses agentes como virus, que em latim significa ‘veneno’. Era o início da ciência chamada Virologia.

Só que, em 1972, o termo vírus passou a também significar, na Informática, o programa que cria cópias de si em computadores, independentemente da vontade do usuário, e que causa efeitos indesejáveis na máquina (de modo análogo ao vírus nas células).

A associação entre vírus e informação nunca mais se desfez. Em 1999, o termo viral assumiu o sentido do ‘que se torna repentinamente popular na internet’. Em meados da década de 2000, surgiu o verbo viralizar, fazendo referência unicamente ao conteúdo viral internético.

O termo vem do inglês viralize. Adaptamos daí com o nosso sufixo -izar, que dá a ideia de ‘processo, passagem duma condição a outra’, como observamos em vitalizar, suavizar, oportunizar, fidelizar, anglicizar, carnavalizar e escandalizar. (E há aquela briga de iniciar vs. inicializar, bom tema pruma outra postagem.)

Agora, ser viral é almejado, é meta de vida de muita gente. Ninguém mais lembra que viralizar está relacionado ao repugnante vírus, na etimologia e no sentido da replicação.

Para um conteúdo, coisa ou sujeito ser verdadeiramente considerado viral, no entanto, alguns parâmetros métricos precisam ser alcançados. É preciso ter:

✳️ taxa de compartilhamento acima de 1 – a maioria dos indivíduos que o vê compartilha com pelo menos outros dois;

✳️ crescimento rápido – aumento súbito de visualizações ou interações em poucas horas ou dias;

✳️ alcance fora da bolha – o conteúdo circula em públicos que não são os seguidores originais.

Outra característica que eu colocaria aí é o efeito quinze minutos de fama. Tão rápida quanto a popularização viral do conteúdo é a sua tendência em ser esquecido. A força que impulsiona seu alastramento é a mesma que lhe faz cair no ostracismo. A fila anda e outros tantos contéudos estão aí lutando por um lugar ao sol ou, melhor, um pedacinho dos holofotes.

Muitos perfis das redes sociais e portais de jornalismo divulgam que tais e tais ocorridos “viralizaram”, mas sequer ligam para o sentido da palavra. Em muitos casos, usam proposital e irresponsavelmente viralizar para atrair a atenção do público, para ter engajamento. “Este vídeo tosco aqui nem deu ibope, mas vou pôr na legenda que ele viralizou.” É o apelo à fama antes da fama.

Entre viralizações efêmeras e esses pseudovirais, só posso garantir que o que de fato viralizou foi a palavra e o conceito de viralizar –  praticamente uma epidemia para a qual não há vacina.

Gostou? Então leia mais um tantão de histórias bacanas nos livros 100 etimologias para curtir e compartilhar e 50 pseudoetimologias para deixar de compartilhar.

📚 Referência: Etymonline (out. 2025).

🖼️ Figura: printes de matérias diversas (2025).

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