
Depois da postagem dsobre mal-assombrado, dezenas de leitores me perguntaram o motivo de algumas palavras italianas serem com O, quando a original latina e a equivalente portuguesa são com U. (Mentira… só um que me perguntou isso, rsrs.)
É bem verdade que, na evolução da língua, várias palavras italianas tiveram o som de /u/ trocado por /ó/ e, depois, /ô/. É o caso de burgensis (habitante do burgo) que ficou burgués em espanhol e galego, burgés em catalão, bourgeois em francês (pronuncia-se /burjuá/), burghes em lombardo, burghez em romeno, burguês em português, maaaas borghese em italiano.
Até nossa língua por lá é com O. Os italiano chamam o país lusitânico de Portogallo e a língua, portoghese.
O nosso radical -ulo (vindo do latim -ulus, que forma diminutivos), no italiano ficou -olo. Por isso, vírgula, em italiano é virgola e você já sabe fácil o que significam muscolo, calcolo, cupola, ridicolo, tremolo e pendolo.
Olha como os UU somem na frase ‘o urso imundo é muito suspeito’: l’orso immondo è molto sospetto. Sorprendente, non è vero?
O fato é que a troca de U latino por O não é exclusividade do italiano. Ele já acontecia no latim vulgar. A mais comum é aquela do U final, que transformou amicus em no português amigo e no italiano amico; textus → texto e testo; signum → signo e segno; bracchium → braço e braccio.
Também tivemos essa alteração no U do começo dalgumas de nossas palavras: lupus → lobo; musca → mosca; furca → forca; umerus → ombro; furnus → forno; pulpa → polpa; sub → sob.
Essas trocas de /u/ por /o/ e vice-versa são bem comuns, até nos das atuais. Observe, na nossa língua, como muita gente fala /bunítu/, /dumíngu/ e /tumáti/. Também há, com menos frequência, quem diga /ágoa/, /molhér/ e /somíço/. E aí, é coringa ou curinga? Jaboticaba ou jabuticaba?
U e O intercambiam! Olha esse caso que corioso, ops, curioso de variação CO/CU: em latim cochlearium passou ao francês arcaico como cuilliere, ficando colher em português, mas que muitos pronunciam /culhér/ ou /cuié/.
Só que na região da Toscana, ali no centro da península Itálica, o latim vulgar se desenvolveu com algumas características bem particulares, formando a base da língua que viria a ser o italiano padrão. Uma delas foi a tendência de abrir o /u/ para /ó/ quando o U era seguido das consoantes sonoras L, M, N e R. O som /ó/ favorece a abertura articulatória, pois a língua precisa relaxar para pronunciar a consoante seguinte.
Então, o latim multus, por exemplo, passou a ser pronunciado /móltus/, ficando /mólto/ no italiano antigo. De lá para cá, só houve mudança no timbre, chegando ao atual molto (/môlto/). Igualmente, tumba → tomba; curtus → corto; mundus → mondo.
Uh, é isso! Favoloso!
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📚 Referência: Vocabulario de las dos lenguas toscana y castellana, por Cristóbal de las Casas (1587).
🖼️ Figura: maruf555777/Freepik (dez. 2023).
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