
O grande cantor e filósofo cearense Falcão já afirmava, na canção A esperança é a única que morre (1999), que “chifre é como assombração/ geralmente aparece pra quem tem medo”. Eu já acho que ambos só surgem para quem acredita, rsrs.
Cético que só, eu não acredito em fantasmas, mas não me ponho à prova. Não é nada daquela antiga frase castelhana “no creo en brujas, pero que las hay, las hay” (não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem). É mais pela sensação ruim, o efeito psicológico que certos ambientes conseguem causar. Eu sei que, para o nosso cérebro altamente sugestionável, qualquer rangido se transforma no som duma aparição sobrenatural.
Assim, não creio nas assombrações, mas certamente nas casas mal-assombradas. Pensando nisso, lembrei duma questão que o amigo Fernando Pestana me apresentou há algum tempo: se podemos dizer simplesmente que a casa é assombrada, por que cargas-d’água usamos o adjetivo mal-assombrada? Por acaso existe algum lugar bem assombrado?
Sim, amigos viventes, existe! E não tem a ver com o caso de se tratar dum lugar em que vagueiem espectros do bem, simpáticos como o Penadinho ou o Gasparzinho. Ah, a etimologia de hoje é um assombro!
Sem sombra de dúvidas, a sombra está na origem disso tudo. Em latim, ela é umbra. É daí que temos palavras como umbrela (sombrinha, guarda-sol) e umbral (o lugar das sombras, do Espiritismo).
No latim vulgar, o U foi sendo pronunciado /o/ em muitas palavras, o que fez lupus ficar lobo em português. E assim aconteceu com musca → mosca; furca → forca; umerus → ombro; furnus → forno; pulpa → polpa; sub → sob.
Veja, umbra ficou como ombra em italiano, occitano, lombardo, vêneto e catalão e ombre em francês e friulano, mas na península Ibérica apareceu um S na frente. Tornou-se sombra em português, espanhol e galego.
Em 1901, o filólogo português José Leite de Vasconcelos explicou que a expressão latina sub illa umbra (sob aquela sombra) teve esta impressionante evolução : so(b) la ombra → so l’ombra → solombra → soombra → sombra. (Solombra é o nome do último livro de poesias de Cecília Meireles, publicado em 1963.) Em mirandês (língua do nordeste de Portugal), fala-se selombra.
Uh! Foi nesse bololô que sombra estreou em nossa língua no século XIV. Tão logo já contávamos com o verbo assombrar, significando simplesmente ‘cobrir de sombra, sombrear’. Assim, uma casa assombrada nada mais era que uma casa cercada por grandes árvores.
O etimólogo espanhol Pedro Felipe Monlau, em 1881, explicou que o espanto ou o sentimento de medo causados pela escuridão levou o verbo assombrar a ter o sentido de ‘espantar, assustar’ – o que depois viria a ter sentidos negativos (“recebeu uma notícia assombrosa”) ou positivos (“seu talento é assombroso!”).
Mas não é ainda daí que temos o adjetivo mal-assombrado. Um dos significados figurados que sombra tinha era o de ‘feição, aspecto, semblante’. Não é à toa que sombra é um dos sinônimos de vulto. Por isso, ter boa sombra é apresentar ‘bom aspecto, bons ares, boa cara’.
Olha que interessante. Na sua narrativa sobre sua viagem à China, Peregrinação, de 1614, o explorador português Fernão Mendes Pinto contou sobre o casamento do imperador com uma “molher ja de trinta annos, mas bem assombrada”. Eita!
Noutro trecho, pelo contrário, Fernão fala sobre uma grande procissão a um pagode, na qual um povo conhecido por Nucaramões exigia esmolas. Eles eram “muyto feyos e mal assombrados, vestidos de pelles de tigres”.
Então, originalmente, uma coisa mal-assombrada era, nas palavras do lexicógrafo português Agostinho Barbosa (1611), algo “de cara ruim” – sem nada de sobrenatural.
Acontece que, antigamente, os fantasmas eram entendidos não como seres translúcidos, esbranquiçados, como o cinema popularizou, mas seres obscuros, manchas escuras que zanzavam à noite, vultos errantes, sombras vagantes… Foi aí que casas mal-assombradas (de aspecto ruim) se tornaram um ótimo local para as almas penadas (sombras) passarem o tempo assombrando (assustando) os vivos.
Bem assombrado ficou no passado, mas mal-assombrado assumiu o sentido de ‘frequentado por fantasmas’ e se manteve em nosso vocabulário. Mas lembre-se que é com hífen, hein! Mal assombrada é a casa que não tem sombra suficiente ou cujo fantasma é incompetente.
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📚 Referências: Dictionarium lusitanico latinum, por Agostinho Barbosa (1611); Thesouro da lingua portugueza, por Domingos Vieira (1874); e Estudos de philologia mirandesa, por José Leite de Vasconcelos (1901).
🖼️ Figura: marumaru/iStockphoto (ago. 2021).
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