
Assim como tivemos de dizer adeus ao trema, ao fax, ao Estado da Guanabara e ao vestido balonê, fomos obrigados a viver sem Plutão – bom, pelo menos na lista oficial de planetas da União Astronômica Internacional, a UAI.
Uai, e como ficou a Astrologia depois desse rebaixamento de Plutão a planeta-anão? Muito astrólogo ficou Pluto da vida com a debandada do ex-planeta. Será que o personagem Pluto, dos desenhos da Disney, deveria trocar de nome? E o plutônio, que tem a ver com tudo isso? Ah, a postagem de hoje está plutoniana!
Plutoniano é um adjetivo que significa ‘dos infernos, infernal’. Eita! O termo é uma referência a Plutão, o deus romano do mundo subterrâneo. É o equivalente a Hades da mitologia grega.
Em latim, Plutão é Pluto, vindo do grego antigo ploûtos, que significa ‘riquezas’. A associação se deu porque é no subterrâneo que estão os metais preciosos e é de sob a terra que as sementes germinam para nos dar os valiosos alimentos.
A partir de ploûtos, temos hoje termos como plutocracia (o governo dos ricos), plutologia (estudo da riqueza) e plutomania (‘fixação patológica na riqueza’ ou ‘ilusão de ser rico).
O latim Pluto fica Plutonem no caso acusativo (quando a palavra é objeto direto). Esse N a mais é o que aparece no francês Pluton, no italiano Plutone, no galego e no espanhol Plutón. A língua portuguesa modificou a terminação -onem em -ão. Foi o que aconteceu com:
✳️ leo → leonem → leão;
✳️ pavo → pavonem → pavão;
✳️ melo → melonem → melão;
✳️ Plato → Platonem → Platão;
✳️ Pluto → Plutonem → Plutão.
Só que em inglês, o termo Pluto se conservou na grafia, vindo diretamente do latim. O detalhe é que o povo dos EUA o pronuncia como /plúrow/.
Por séculos, o deus do submundo ficou escondidinho, relegado ao obscurantismo, com saudade dos tempos áureos da mitologia romana. Os holofotes lhe voltaram só com a descoberta do que seria o nono planeta do Sistema Solar.
Os antigos sabiam da existência de apenas seis planetas – até Saturno. Com a invenção do telescópio, Urano foi descoberto em 1781 e Netuno, em 1846. Só que Urano apresentava umas perturbações em sua órbita que sugeriam a existência de mais um planeta. Foi aí que o astrônomo estadunidense Percival Lowell, em 1906, lançou um projeto em busca do que ele denominou Planeta X.
Lowell virou estrelinha em 1916, sem ter encontrado o planeta incógnito. Só em fevereiro de 1930 é que, finalmente, o tal Planeta X foi encontrado, pelo astrônomo estadunidense Clyde Tombaugh.
A notícia do novo planeta foi um frisson mundial. O Observatório Lowell, que detinha o direito de pôr nome no novo astro, recebeu milhares de sugestões. Uma delas foi a da inglesa Venetia Burney, uma menina de 11 anos, da cidade de Oxford, que adorava Mitologia clássica. Depois, numa votação entre três nomes (concorrendo com Cronos e Minerva), o nome Plutão foi eleito em maio de 1930.
Além da simbologia, um dos motivos da eleição é que as duas primeiras letras de Plutão são as iniciais de Percival Lowell, o que explica o símbolo do planeta ser ♇ (um P sobre um L).
O nome foi um sucesso! Até os astrólogos trataram de incorporá-lo aos mapas astrais, nos quais Plutão substituiu Marte como regente do signo de Escorpião. Ui!
O entretenimento não ficou atrás. O animador Walt Disney desenhou em 1930 um cachorro chamado Rover – na época, um nome muito popular de cão – para ser o mascote da ratinha Minnie. Por sugestão de sua esposa, Lillian, Walt Disney renomeou o personagem em maio do ano seguinte. Aproveitando o entusiasmo do momento, trocou um nome trivial por um icônico e ainda passou a tutela do bichinho ao Mickey. O nome Pluto, fácil de ser pronunciado, não foi traduzido ao português.
Os químicos também surfaram na onda do novíssimo Plutão. Olha só. O elemento de número atômico 92, o urânio, foi descoberto em 1789; seu nome homenageou o planeta Urano, encontrado 8 anos antes. O elemento 93 foi descoberto em 1940 e nomeado em referência ao planeta seguinte: netúnio. Em 1941, acharam o elemento 94, que, pela sequência lógica, acabou tendo o nome do planeta posterior: plutônio.
Os químicos acreditavam que, assim como Plutão, o plutônio era o último da sua turma. Mas o reinado do plutônio como o “ultimão” não durou muito. Poucos anos depois, já haviam descoberto o amerício (95) e o cúrio (96). Hoje, a tabela periódica vai até o elemento 118, o oganessônio.
O título de “o mais afastado” de Plutão durou um pouco mais, até 2006, quando passou a ser considerado um planeta-anão. Com 87 anos na época, a nomeadora de Plutão, Venetia Burney, que em vida pôde ver um planeta surgir e perder o posto, lamentou: “Preferiria que Plutão continuasse a ser um planeta, mas, na minha idade, isso não tem mais muita importância…”
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📚 Referências: The girls who named a planet, por Paul Rincon, na BBC News (jan. 2006); e A menina que batizou um planeta, por Fernando Fernandes, na revista Constelar (set. 2006).
🖼️ Figuras: Flat Icons/Flaticon (jan. 2020), PNGIMG (out. 2025) e bearicons/Flaticon (nov. 2021).
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