
Enquanto os homens exercem seus podres poderes, alguns se tornam pés-rapados e outros ficam milionários, endinheirados, ricalhaços, abastados, pecuniosos, ourudos, apatacados, casacudos. Não basta ser rico, o negócio mesmo é ser podre de rico!
Como já dizia o cantor e filósofo cearense Falcão, em Um bodegueiro na Fiec (1992), “eu sei que a burguesia fede, mas tem dinheiro pra comprar perfume”. Eita! Mas dizer que a raissoçaite está podre não seria um exagero?
Qualquer guia de turismo que lhe acompanhe numa igreja histórica de Minas Gerais provavelmente lhe dirá que a expressão podre de rico se originou no Brasil Colônia, quando os ricos eram sepultados dentro das igrejas, perto do altar, e seus corpos apodreciam exalando um mau cheiro sentido durante as missas. A expressão, portanto, faria referência literal à podridão de corpos ricos.
Essa conversa é tão propagada, que até as IAs estão a repeti-la. Temos aí, no entanto, mais uma pseudoetimologia antiga, do tempo do epa. Então, chega de ladainha e vamos à verdade libertadora.
A expressão podre de rico sugere que a fortuna dum sujeito abonado seria o motivo de sua podridão, mas sua origem nos mostra que a ligação entre os termos podre e excessivamente vem de longa data e não servia só para a condição de riqueza. A expressão registrada nos dicionários é apenas podre de e significa ‘muitíssimo’.
Podre vem do latim puter, putris, que significa ‘estragado, corrompido’. É dessa palavra que temos outras relacionadas, como pútrido, putrefação, putrefato e putrescina (a molécula orgânica presente na carne em decomposição e que lhe dá aquele cheiro horrível característico).
O caso acusativo de puter é putrem, e foi dessa palavra que surgiu podre em português. A modificação de TR para DR foi a mesma que fez o latim patrem nos ficar como padre; petram → pedra; latronem → ladrão; vitrum → vidro; atrium → adro. Assim, desde o século XIII, contamos com a palavra podre em nosso vocabulário.
O célebre escritor português Luís Vaz de Camões, em 1545, em sua peça cômica El-Rei Seleuco (sim, Camões fez mais que Os lusíadas…), contava a história do príncipe Antíoco que se apaixonou pela jovem esposa de seu pai, o rei Seleuco. A certa altura da história, o Escudeiro comenta com seu amo sobre “a donzela, que vem podre de amor, falando como apóstolo, mais piedosa que a lamentação”. Foi uma forma poética de dizer que a moça estava apaixonada, num grau elevado de amor.
A metáfora se baseia na ideia de que o amor poderia tomar alguém por completo, como um vício. Isso porque, naquela época, já se dizia a expressão podre de vícios a quem estava corrompido pelos comportamentos censuráveis ou prejudiciais. Aliás, podre de vícios acabou se reduzindo a apenas podres, quando se refere aos defeitos dalguém: “Ele se faz de santo, mas eu conheço bem os seus podres.”
Dali em diante, ser podre dalguma coisa era simplesmente estar repleto daquilo, tê-lo em abundância – e não tem nada a ver com sepulturas em igrejas históricas. Assim, o lexicólogo carioca Antônio de Morais Silva, apresenta, em 1858, no seu Diccionario da lingua portuguesa:
✳️ podre de amor: apaixonado;
✳️ podre de sono: muito sonolento;
✳️ podre de rico: riquíssimo.
Hoje, nas redes socias, não é difícil vermos o pessoal escrevendo coisas como: “Conheci uma moça podre de boa (‘muito bonita’, na gíria portuguesa).”; “A cantora é podre de linda!”; “Era um sujeito podre de engraçado.”; “Vocês vão ver só quando eu for podre de famoso.”
É curioso ver como podre, nesses sentidos, acabou associado a algo positivo, assim como eu acho a tal da massa podre uma delícia!
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📚 Referência: Diccionario da lingua portuguesa, por Antônio de Morais Silva (1858).
🖼️ Figura: ChatGPT (out. 2025).
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