Símbolo da paz: dedo em V

Passei dos 40. Não é fácil ser o tiozão do zapzap e tentar se comunicar com a juventude. Já começa com o fato de que só tiozão fala zapzap; o jovens escreve zap ou whats. Depois, falam-me que escrever corretamente as mensagens, com vírgulas, pontos e acentos, é coisa de gente presunçosa ou, em jovenês, gente que se acha.

Eu, que já apanhava para entender as figurinhas que recebo, descobri que estou também perdido quanto aos emôjis. Soube só agora que, desde 2022, a nova geração considera ofensiva a resposta com emôji de joínha (👍), que eu uso a cântaros… ops, no jovenês, pra krl.

Por fim, esses dias, vi-me obrigado a esclarecer a um aluno o significado do sinal de dedos em vê. Depois de ele ter me agradecido, eu lhe enviei o emôji ✌️ e ele então me perguntou “dois o q?” (sic). Eita!

Vamos à explicação.

Oficialmente, o gesto se chama sinal de V ou dedos em V. Também pode ser como Belchior cantava em Velha roupa colorida (1976): “Nunca mais você saiu à rua em grupo reunido/ O dedo em V, cabelo ao vento, amor e flor, quede o cartaz?”

[É favor não confundi-lo com sinal de V reverso (🖔), com o dorso da mão voltado para fora, que é ofensivo em vários países e pega supermal. 😱]

Em 1993, o gesto foi oficializado na Informática como um caractere, adicionado ao Unicode 1.1 com o nome de victory hand (mão da vitória). Em 2015, passou a integrar o conjunto de emôjis do Unicode.

É isso aí. Antes de significar ‘paz’, o gesto originalmente retratava a letra vê, de ‘vitória’. Se tem vitória, tem contenda, e o contexto do arranca-rabo foi a II Guerra Mundial.

A Bélgica foi ocupada pelos alemães de 1941 a 1945. O ex-ministro da Justiça, Victor de Laveleye, estava exilado na Inglaterra, onde se tornou diretor das transmissões em francês da BBC. Numa transmissão de 14 de janeiro de 1941, na Radio Belgique, Victor sugeriu aos belgas que adotassem um emblema de protesto, que com os dedos indicador e médio formassem um V. É a letra inicial de victoire (vitória, em francês) e vrijheid (liberdade, em holandês).

Depois disso, a BBC iniciou a campanha V for Victory. Em poucos meses, o gesto havia se espalhado pela Europa ocupada. Foi em julho de 1941 que o primeiro-ministro do Reino Unido, Winston Churchill, passou a fazer o vê da vitória, popularizando-o mundialmente.

Tanto o gesto quanto a letra V sozinha se tornaram símbolos de resistência. Em 1945, os Aliados finalmente venceram a Segunda Guerra e o gesto se consolidou como ‘vitória’.

Assim o foi (e, claro, em vários contextos até hoje) até que outro sentido lhe foi atribuído nos anos 60, noutra guerra. Em 1965, os EUA enviaram tropas ao Vietnã do Sul para tentar impedir a unificação do Vietnã sob o governo comunista do Norte.

Lyndon B. Johnson, o então presidente dos EUA (de 1963 a 1969), usava o gesto em seu mandato para evocar a vitória estadunidense na Guerra do Vietnã. Nas manifestações antiguerra, no entanto, os movimentos estudantis e da contracultura usaram justamente os dedos em vê para afirmar que a verdadeira vitória estava na paz.

Os hippies adotaram o sinal. Frequentemente o faziam enquanto diziam peace (paz), o que, nos anos 60 e 70, passou a atribuir ao ✌️ o significado de ‘paz’ ou ‘paz e amor’ – o lema hippie. Bandas como The Beatles e Black Sabbath ajudaram a popularizá-lo com esse sentido.

De lá para cá, o gesto continua com seus significados anteriores, mas já é expresso com outras finalidades. No Japão, onde é chamado ピースサイン (pīsu sain), emprestado do inglês peace sign, o gesto é feito especialmente em fotos apenas para passar um ar de fofura (cultura Kawaii). É por isso que minha filha, Cecília, de 9 anos vive tirando fotos com o dedo em vê e nem sabe o porquê, rsrs.

Como emôji, o sinal de vê pode servir como uma despedida, significando algo como ‘fique em paz’ ou simplesmente ‘beleza, valeu’. É bom explicarmos essas coisas aos jovens, pois sabemos que as conversas por escrito no zapzap são cheias de mal-entendidos. É por isso que o contrário de paz é zap. 😯

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📚 Referência: Victory Hand emoji, em Dictionary (ago. 2018).

🖼️ Figura: ChatGPT (set. 2025).

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