
Se você procurar no dicionário pelo antônimo de paz, encontrará os termos conflito e guerra. Das duas, uma: vive-se em paz ou se vive em guerra. Se você não está em conflito com ninguém (nem consigo mesmo), pode afirmar que tem o privilégio de curtir sua vida em paz.
A antonímia guerra-paz é inevitável. Por muitos anos, eu observei nas rodovias os caminhões com a lona da marca Guerra, cujo lema era escrito abaixo da logo: “É paz na estrada”. Oh, a antítese! É a que aparece no lema espanhol da cidade de São Francisco, nos EUA: “Oro en paz, hierro en guerra” (Ouro em paz, ferro em guerra). Também está no mundialmente famoso romance Guerra e paz (1865), do escritor russo Liev Tolstói, em que, à época das guerras napoleônicas, a Rússia era retratada contrapondo-se a hipocrisia da nobreza e a dura vida dos soldados e servos.
Inevitavelmente, os conceitos de paz e guerra precisam coexistir, pois o estado e o sentimento de paz só existem porque houve, nalgum momento ou lugar, uma situação conflituosa, de guerra. Paz é a ausência de conflito. É um conceito correlacional.
Talvez por isso, dizem que “só quem conheceu a guerra sabe dar valor à paz”. Mais ainda, o filósofo e padre português Antônio Vieira, em seus Sermões (1679), afirmou que “a paz é filha da guerra, e à guerra sucede a paz”. O padre jesuíta perguntava como pode duma mãe tão feia e descomposta nascer uma filha tão formosa e modesta?
Fã de Etimologia, Antônio Vieira fez uma analogia interessante com dois personagens bíblicos. Ele disse que o rei Davi, aquele que derrotou o gigante Golias, era um guerreiro e que seu nome significa mão forte. Seu filho e sucessor, o rei Salomão, teve um reinado tranquilo; seu nome significa pacífico. “A paz é filha da guerra.”
Guerra em latim é bellum. É por isso que, em português, dizemos que algo relativo à guerra é bélico e o que está em guerra é beligerante; a deusa romana da guerra era Belona; o navio de guerra é uma belonave. Rebelar vem de rebellare (retornar ao conflito) e rebelde, de rebellis (o que recomeça a guerra). Uma nação com poder na guerra é belipotente; a que não tem espírito belicoso, é imbele.
Curiosamente, bellus, em latim, significa ‘belo, bonito, gracioso’. Na Antiguidade, usava-se principalmente a flexão no feminino, bella, para elogiar mulheres e crianças. Então, não há como cogitar a relação entre bellus e bellum, dois conceitos tão antagônicos.
Mais uma vez, o padre Antônio Vieira explicou que “os antigos chamaram à guerra, bellum, não por ironia ou antífrase, como muitos cuidam, senão porque da guerra nasce a bela paz”. Eita!
Como bellus e bellum são palavras facilmente confundíveis, foi natural que os antigos passassem a preferir outra palavra para designar o quebra-pau. Na Idade Média, entre os século V e VI, o povo passou a adotar o termo werra, que na língua frâncica significa ‘discórdia, confusão, revolta’. [Os francos foram um povo germânico que invadiu a Gália (atual França) nos séculos III e IV e se tornou um dos mais influentes após a queda do Império Romano.] É daí que veio nossa palavra guerra.
Por sua vez, paz vem do latim pacem, que é a flexão no caso acusativo de pax. É por causa de pacem que há a letra C em termos como pacífico, pacificador e pacifismo (‘amor à paz’; o contrário de belicismo).
Também de pacem, o verbo pacare, no latim vulgar, significava originalmente ‘pacificar’. Depois, passou a ter o sentido de ‘resolver uma dívida, apaziguar com dinheiro’, o que nos deu o verbo pacar, que virou ‘pagar’. Quem imaginaria que o pagamento tem sua origem na paz?
Outra curiosidade: aquele que trazia em si a paz (pacem) era o pacatus. É desse termo que temos o adjetivo pacato e a música Pacato cidadão (1994), do Skank. Muito gente há de se lembrar de Pacato, que nos desenhos animados de He-Man e os Defensores do Universo (1983–1985), era o tigre medroso do príncipe Adam. Quando era atingido pela Espada do Poder, transformava-se no Gato Guerreiro. Guerra vs. paz: olha a antítese aí de novo!
Um antigo provérbio latino diz que si vis pacem, para bellum, isto é, ‘se desejas a paz, prepara-te para a guerra’. [É daí que vem parte do nome do filme John Wick 3: Parabellum (2019) e a pistola alemã parabélum.] A frase é atribuída ao escritor romano Flávio Vegécio, do século IV, no seu livro De re militari (Sobre as coisas militares). É um modo de dizer que, em tempos de paz, é preciso ainda sim pensar na guerra. Trata-se duma espécie de paz armada, também interpretada como paz pela intimidação ou paz pela força.
Vale a pena discordar? Vale! Contra esses valores, há um ditado português do século XVII: paz de cajado, guerra é. Não existe verdadeira paz entre sujeitos armados. Que paz é essa que se vale da constante vigilância?
A paz não é filha da guerra, Padre Vieira! Davi significar ‘mão forte’ é uma pseudoetimologia. Na verdade, o nome do pai de Salomão surgiu do grego antigo Dauíd, vindo do hebraico bíblico דּוֹד (dod), que significa ‘amado’.
A paz é filha do amor.
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📚 Referência: Sermões do padre Antonio Vieira, de Antônio Vieira (1857).
🖼️ Figura: wenjin chen/iStockphoto (mar. 2022).
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