A origem da palavra ‘covarde’

“A flecha não acerta o covarde.”

Dá para ser covarde com dignidade ou a dignidade é só para os corajosos? Hoje em dia, nossas batalhas estão no mercado de trabalho, onde a covardia é muito menos percebida e os covardes, em geral, estão se dando bem. Historicamente, no entanto, a covardia era imperdoável, vergonhosa, degradante, desmoralizante, desonrosa, aviltante

A covardia é condenada em alto grau quando, essencialmente, envolve julgamento e repercussão pública. O grande problema talvez não seja a covardia em si, mas se a ação covarde se tornou conhecida e reprovada pelos demais. Do contrário, às escuras, muitos covardes vivem bem e felizes e dormem gostoso à noite toda.

Antigamente, era bem diferente… Em épocas em que os homens deviam estar preparados e dispostos para combates diversos, os atos de coragem e os atos de covardia eram facilmente identificados. Não havia desgosto maior para um pai do que ter um filho covarde – um desertor do exército ou um bocó que leva desaforos para casa. Perdoa-se quem erra, mas não quem deixa de agir.

Pior do que a fraqueza física, o covarde ainda expunha certa falta de força moral, um defeito de caráter. Por isso, aos corajosos o Céu; aos covardes, o Inferno.

Na Roma Antiga, soldados desertores eram punidos com espancamento. Aos grupos de combatentes covardes, acontecia a dizimatio (dizimação): a cada dez soldados, sorteava-se um para ser abatido por porretadas pelos outro nove companheiros. É daí que temos o verbo dizimar (exterminar, arruinar). Eita!

Quem tinha coragem, em latim, era audax (pronuncia-se /áudaks/). Daí temos os nossos termos audaz e audacioso. Quem tinha timor (medo), era timidus, termo que ficou por tímido em português e com uma conotação mais leve, não de ‘medroso’, mas de acanhado, envergonhado, embaraçado diante dos demais.

Um sinônimo para timidus era pavidus (pávido), quem era tomado pelo pavor. É por isso que, no Hino do Brasil, ouvimos o trecho “Gigante pela própria natureza/ És belo, é forte, impávido colosso”, ou seja, o nosso país é corajudo!

Outro termo que se usava para o cabra frouxo era pusillanimis (pusilânime, em português). Vem da união de pusillus (pequenino) e anima (alma). O pusilânime é a fraco de ânimo; já o longânime é forte, disposto.

Já viu aquela história que fulano tremia as pernas de medo? Que tremelicava mais que vara verde, que tiririca no vento, que ônibus em Diamantina, que cãozinho Pinscher que escutou trovão? Então, é daí que trepidus (trépido), é o medroso que se paralisa pela trepidação (tremedeira) e o intrepidus (intrépido) é o valente, que não treme frente ao perigo.

Apesar de tantos nomes que o latim nos entregou para designar o bunda-mole, ficamos em maior uso com dois antônimos de origem francesa, covarde e corajoso.

Corajoso é uma adaptação do francês antigo corageus (atual courageux), assim como coragem é de corage (atual courage). Com primeiro registro no século XI, corage  é o que vem do cœur, que significa ‘coração’. Aliás, antigamente, chamávamos o coração de cor e daí vem a nossa expressão saber de cor (conhecer intimamente, com o coração).

A covardia também já foi atribuída ao coração. Alguns antigos etimólogos afirmaram que covarde (ou cobarde) viria do inglês médio cou-herte (‘coração de vaca’, atual cow-heart).

Na verdade, covarde veio do francês couard, que também gerou o inglês coward, o catalã covard e o espanhol cobarde. Por sua vez, couard surgiu do francês antigo coart e este da união de coue (‘cauda’, atual queue) e -art (sufixo pejorativo). É uma referência à cauda baixa dos animais com medo. (É por esse comportamento que dizemos a expressão com o rabinho entre as pernas para quem ficou envergonhado ou amedrontado.)

Concluímos, então, que, etimologicamente, a coragem está no coração e a covardia está no rabo. 😯

Mas calma que coragem cega também não tem nada de virtuoso. A prudência é o melhor caminho. Algumas atitudes inteligentes podem ser confundidas com covardia, como a rendição estratégica ou a escolha de evitar o conflito.

Como diz a Bíblia, no livro de Eclesiastes (capítulo 9, versículo 4), “melhor é o cão vivo do que o leão morto”. Ou como diz o filósofo e cantor cearense Falcão, na música O desgosto que tua mãe me deu (1994), “eu acho melhor escapar fedendo do que morrer cheiroso”.

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📚 Referências: Na origem da covardia, o ‘rabo entre as pernas’, por Sérgio Rodrigues, na revista Veja (jul. 2015); e Os covardes herdarão a Terra?, por Andresa Boni e Luiz Felipe Pondé, no podequeste Linhas cruzadas (mar. 2024).

🖼️ Figura: Coragem, o cão covarde, em Geek Mega (set. 2025).

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