
Escarafunchando essas internet de doido, fui surpreendido por uma afirmação deveras intrigante, que me apareceu sabe-se lá como. Um blogue explicava que a expressão até debaixo d’água teria origem no lema da repartição da Marinha que se ocupa dos submarinos. Olha que texto curioso:
“Em 1913, a flotilha de submarinos do Brasil adotou a legenda Usque ad acqua nauta sum, quer dizer, ‘Marinheiros até debaixo d’água’ e com isso popularizou essa expressão usada com o sentido de radical. ‘Corintiano até debaixo d’água’, por exemplo.”
Ah, juntou expressão popular com latim?! Tive de me aventurar por essas águas e investigar a fundo!
Nauta é uma palavra que existe em latim e em português; vem do grego antigo naútes, que significa ‘marinheiro, navegante’. É daí que temos outros navegadores como o aeronauta, o astronauta, o cosmonauta e o internauta. Os lunautas viajaram à Lua; os maionautas, na maionese? Quem jura que foi abduzido por um disco voador é ufonauta ou ovnionauta. Argonautas são os lendários heróis gregos do mitológico navio Argo, liderados por Jasão, que se aventuraram em busca do velocino (pele de ovelha com lã) de ouro.
Por sua vez, naútes vem de naûs, que vale o mesmo que ‘navio, embarcação’. É a partir dela que temos palavras como náutica (a arte da navegação), náutico (relativo à navegação), náusea (enjoo do mar), náufrago (vítima do afundamento da embarcação) e naumaquia (espetáculo romano que expressava um combate naval). Náutilo é um molusco marinho; Nautilus é o nome do submarino do capitão Nemo, das Vinte mil léguas submarinas (1871), de Júlio Verne.
Submarino é o que está ‘sob o mar’. O navio submarino é uma ideia que existe desde a Antiguidade, mas só veio à tona na prática com o inventor holandês Cornelis Drebbel, em 1620, que adaptou um barco coberto de couro, movido a remos, e conseguiu navegar submerso no rio Tâmisa.
As marinhas viram ali uma ótima estratégia para ataques e defesas na água. Mais modelos foram sendo aperfeiçoados. O primeiro a ser usado num conflito foi o USS Turtle, na Guerra da Independência dos EUA (1775–1783); era de madeira, impulsionado por manivela acionada pelo único tripulante.
Já na Guerra Civil dos EUA (1861–1865), temos o primeiro submarino a abater um navio inimigo. Em 1864, o CSS Hunley, dos Estados Confederados da América, conseguiu afundar um navio da União (mas a explosão fez sucumbir o próprio submarino com o capitão e os sete tripulantes).
Isso tudo fez acender a luzinha vermelha de alerta na cabeça dos comandantes de todo o mundo. Era hora de estender a luta nos mares para debaixo d’água. Tal preocupação chegou ao Brasil, que tentou construir seus primeiros submarinos apenas com o gênio inventivo de nossa gente. Em 1892, o projetista naval Luís Jacinto Gomes lançou na baía de Guanabara o primeiro protótipo brasileiro de submarino.
Por falta de verba, a Marinha não concluiu o projeto de Luís, nem o de outros que depois vieram. Acabou por preferir comprar três submarinos italianos, que, em 1914, constituíram a Flotilha de Submersíveis do Brasil (Flotilha de Submarinos, em 1928, e atual Força de Submarinos, desde 1963).
A Flotilha de Submarinos adotou, mui provavelmente na década de 30, o lema latino Usque ad sub acquam nauta sum, que na verdade significa ‘somos marinheiros até debaixo d’água’.
A expressão até debaixo d’água, que significa ‘em qualquer circunstância’ ou ‘em excesso’, não veio desse lema; o lema é que foi uma ótima sacada para se valer duma expressão popular já existente.
Em 1925, o pianista carioca Osvaldo Cardoso de Meneses gravou o samba Até debaixo d’água. Esse também foi o título empregado na versão brasileira do filme estadunidense You said a mouthful (1932), comédia sobre um homem que teria inventado um maiô inafundável. Ao pé da letra, o nome do longa seria algo como ‘Agora você disse tudo!’.
E é do falar que vem a expressão até debaixo d’água. Também em 1932, o linguista carioca Antenor Nascentes explicou que a expressão vem do espanhol habla hasta debajo dagua (fala até debaixo d’água), para denotar quem fala demasiadamente.
A história da Força de Submarinos do Brasil é linda – vale a pena procurar por mais informações. Então, deixemos a pseudoetimologia de lado para o legado dos primeiros submarinistas não ir por água abaixo.
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📚 Referências: Tesouro da fraseologia brasileira, por Antenor Nascentes (1945); e Os submarinos do Brasil: notas para a História, por Levy Scavarda, na revista Navigator (jun. 1973).
🖼️ Figura: Cruzou é gol/Facebook (mai. 2025).
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