
Disseram-lhe “ei, cara, te manca!” e o rapaz saiu mancando. Eh, eh, eh! Não é assim que funciona…
Se alguém manca é porque está com certa assimetria na marcha da caminhada, mas se alguém se manca é porque apenas percebeu a inconveniência de sua ação.
Por isso, há dicionarizadas umas palavras engraçadinhas derivadas do verbo mancar:
✅ mancômetro ou semancômetro: é a capacidade de desconfiar quando se está sendo inconveniente. É um “aparelhinho” que muitos chamam de desconfiômetro.
✅ semancol: é sinônimo do anterior, porém com remetendo a remédio (sufixo -ol) como se fosse para curar o problema da falta de noção.
Agora, qual é a ligação entre a ação de perceber a própria gafe com a de coxear (caminhar com dificuldade se apoiando mais numa das pernas)? E o que tem ainda a ver com mancada (vacilo, erro, ação inoportuna)? O problema do manco está na perna, mas a etimologia está na mão.
Mancar, no sentido de ‘andar com dificuldade dado à algum problema na perna’, vem do latim vulgar mancare, derivado de mancus, que significava ‘sem uma mão’ (manus). Em espanhol, ainda se diz manco para o maneta ou quem tenha machucado a mão, mas, em português, o termo evoluiu quem não tem algum dos membros, vindo a se fixar com o sentido de não ter um pé ou uma perna ou tê-los defeituosos.
Por extensão de sentido, manco se aplica a móveis em que falta uma perna ou que estão bambos, fora de prumo. “A escrivaninha está manca; a mesa está mancando.” Também se diz ‘manco’ para o que está incompleto ou que falta simetria. Barco manco é o que falta vela ou remo. Versos mancos são os versos imperfeitos na métrica. É expressão que aparece na canção O velho (1968), de Chico Buarque: “Ele me é franco/ Mostra um verso manco/ De um caderno em branco/ Que já se fechou.”
Na língua italiana, mancare (mancar) ficou com o sentido de carência, falta: “Lui manca di coraggio” (ele não tem coragem). Foi daí que surgiu, em francês, o verbo manquer, com mesmo significado: “Je manque de temps” (eu não tenho tempo). Também pode indicar uma falha, uma perda: “J’ai manqué mon train” (eu perdi meu trem).
É desse manquer francês que temos em português mancar com o sentido de ‘falhar’. Mancada, portanto, vem daí e não dalgum problema de locomoção.
Já o mancar-se nem tem ligação etimológica com o mancar do coxo. O termo vem do lunfardo (a gíria dos malandros de Buenos Aires). O escritor argentino José Gobello, no seu livro Costumbrismo lunfardo (2004), explicou que mancar significa ‘ver, observar’. É uma alteração do verbo manyar (manjar). Por isso, não se manca quem não se enxerga, não se manja, não se toca, não se liga, não se dá conta que está sendo impertinente ou incorreto.
Pronto! Explicados o significado e a etimologia, afirmar que se manca é termo capacitista é a maior mancada.
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📚 Referência: Etimologías, por José Gobello (1978).
🖼️ Figuras: manco – Leremy/Flaticon (mar. 2023); semancol – Fantasyarts/Shopee (set. 2025).
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