A origem de ‘quenga’

Depois de assistir Gabriela (2012) e ler o romance (1958) de Jorge Amado, no qual a novela foi baseada, minha cabeça de eterna quinta série não sabe mais lidar com o tal do caldo de quenga, um prato típico do Norte de Minas Gerais. Não consigo não rir com um convite do tipo: “Minha esposa vai fazer uma janta especial; venha aqui em casa comer caldo de quenga”.

E como lidar com a notícia de que alunas do município cearense de Bela Cruz foram premiadas por desenvolver um piso ecossustentável utilizando quengas?

E como ter medo dum certo demônio do folclore brasileiro depois de descobrir que um de seus nomes populares é Pé de Quenga? Pé de Quenga!

Quem garante que estamos falando de quengas diferentes? Quem garimpa umas curiosidades dessas? Qual a origem da quenga, ops… de quenga? Quenga por quenga, resolvi investigar a fundo esse mistério quenguístico!

Para quem não é do Nordeste, quenga é uma vasilha feita de coco (Cocos nucifera). O coco tem um endocarpo lenhoso que, quando cortado ao meio e limpo, serve de tigela. Além de funcionar como recipiente onde se come, a quenga serve como medida: uma quenga de feijão; meia quenga de fubá. “Tem farinha aí? Estou precisando de duas quengas.”

A garotada deve conhecer a brincadeira pé de lata, aquela em que se anda sobre duas latas guiadas por barbantes, mas não sei se sabe do antigo pé de quenga. É muito mais legal! Em vez de latas, usam-se quengas com a boca para baixo. O barulho dos passos fica igualzinho ao do bater dos cascos do cavalo no chão.

O mito do Pé de Quenga (ou Pé de Garrafa) existe em vários estados do Brasil. É um ser peludo, muito alto, com uma única perna. Ele vaga pelas florestas deixando pegadas redondas e côncavas, pois seu casco seria no formato duma quenga. Eita!

Ah, e a expressão fumar numa quenga, que significa ‘ficar com muita raiva, encolerizar-se’, vem dessa quenga de coco também. Imagine que o sujeito irritado fuma para se acalmar, mas o extremamente pê da vida tem de usar uma quenga – muito maior – como cachimbo. Haja fumo!

De quenga veio o termo quengo, que é empregado tanto para o vasilhame de coco quanto para a cabeça. Não chamamos cabeça de coco? Então… “Fulano levou uma pedrada no quengo.” “Bote juízo no quengo!” “Esse calor está de rachar o quengo.”

Certo, certo. Vimos que quenga é a vasilha de coco, mas qual é a ligação dela com as funcionárias do randevu, do bataclã, da casa da luz vermelha, da casa de tolerância, da casa de má fama, enfim… do quengário?

Quenga vem da língua quimbundo kienga, que significa ‘tacho’. Reinaldo Pimenta, no seu livro A casa da mãe Joana (2002), de curiosidades etimológicas, apresenta esta explicação: “a quenga – um coco sem a polpa – seria como uma cabeça sem o cérebro, ou seja, uma pessoa desmiolada, tal como sucedeu à quenga, que perdeu o juízo e caiu na vida.” Não sei, não… Achei muito esforço para conectar um conceito ao outro.

E o tal do caldo de quenga? Há páginas da internet explicando que quenga seria uma gíria da região de Salinas, MG, para se referir à galinha, já que a base do caldo é frango desfiado. Xi! Nunca vi mineiro tratar galinha por quenga – digo da ave galinácea, rsrs. Essa explicação me convenceu menos que discurso de político.

Para aumentar a confusão, o dicionário Houaiss apresenta mais um sentido para o vocábulo quenga: “coisa imprestável, inútil”. Eita! Como a quenga, que é tão útil à alimentação, chegaria a receber tal conotação?

Quem gabaritou na explicação e matou a charada foi a linguista baiana Yeda Pessoa de Castro. Profunda conhecedora das línguas africanas, Yeda afirma que quenga não é uma única palavra, mas quatro, de quatro origens diferentes – quatro palavras da língua quicongo, que o brasileiro confundiu e deixou tudo por quenga:

👉 ‘vasilha de coco’: vem de kenga;

👉 ‘guisado de galinha e quiabo’: penga;

👉 ‘coisa sem valor’: nkanga;

👉 ‘meretriz de baixa classe’: nkemba.

Quem diria que poderíamos aprender tanto com quenga… digo… com a palavra quenga? Quem ganha com tudo isso é a cultura brasileira!

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📚 Referência: Aspectos fonéticos, morfossintáticos e lexicais do falar de Caiana dos Crioulos, dissertação de Fernanda Barbosa de Lima (2010).

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