‘Moleque’ é uma palavra racista?


Meu pai não gostava que eu empregasse a palavra moleque. “Fala menino, garoto, criança… Não fala moleque, não!”, dizia ele. Essa é a mais antiga lembrança de censura de palavra que eu tenho.

Ele não queria que eu proferisse um termo supostamente vinculado a um demônio citado em vários livros da Bíblia. É que ele soube por um certo pastor que moleque viria etimologicamente de Moloque (Moloch, em hebraico), um deus dos antigos amonitas e descrito como um diabo no cristianismo.

Pergunta importantíssima: o que, de fato, justificaria o banimento duma palavra? Ora, quando eu dizia, e ainda digo, moleque, jamais estava fazendo alusão a um deus jordânico do século IV a.C., nem mesmo ao capeta (apesar de conhecer muitos moleque encapetados). Mas, pelo raciocínio do meu pai, a etimologia popular que lhe foi ensinada bastaria para que tal vocábulo se tornasse tabu.

Um pouco mais crescido, eu descobri por meio da enorme praticidade que os dicionários sempre se dispuseram, que moleque nada tem a ver com Moloque. O termo vem de muleke, que na língua quimbundo (falada em Angola) significa ‘garoto, filho pequeno’. Essa é apenas mais uma das várias palavras que herdamos dalgumas línguas africanas, agregadas à língua portuguesa à época do Brasil escravocrata.

Há, porém, um motivo totalmente ilógico ao qual várias cartilhas de censura se atêm para exigir o desuso de várias palavras e expressões. É o simples fato de determinado termo ter ligação à escravidão brasileira dos negros, ocorrida durante os períodos colonial e imperial – o que, muitas vezes, aliás, provém duma pseudo-história (não tem fundamento, nem registro, nem evidência, nem nada).

Trago quatro exemplos curtinhos. No livro Expressões racistas: por que evitá-las (2022), do Tribunal Superior Eleitoral (que deveria cuidar só de eleições), condena-se a palavra criado-mudo porque “o simples fato de seu uso ser relacionado com a escravização de pessoas negras é justificativa suficiente para o abandono de seu uso vocabular”.

A mesma publicação também reprova o emprego do termo meia-tigela. Afirmando que poderia vir da “distribuição de alimentos às trabalhadoras e aos trabalhadores escravizados(as)” cuja “refeição seria reduzida a meia tigela se o trabalho fosse avaliado como insuficiente ou ineficiente.”

A cartilha desaprova de igual forma o uso de boçal e crioulo porque, no período escravagista, designavam, respectivamente, “pessoa escravizada que não sabia falar português” e “descendente de pessoa escravizada”. Por isso, os vocábulos estariam impregnados de preconceito.

Quanto às apresentadas origens das palavras criado-mudo e meia-tigela, é importante salientar que são pseudoetimologias – origens populares, sem confirmação científica. Os significados originais de boçal e crioulo procedem.

Para a censura, a justificativa geral desta e doutras publicações congêneres (listas de palavras e expressões proibidas) é a de que “a possibilidade de serem compreendidas como memória da escravidão é justificativa suficiente para que as expressões sejam substituídas por outras”.

Pois nessa linha de raciocínio (raciocínio raso, diga-se), penso que se deveria, então, tomar tal justificativa como padrão e aplicá-la a toooodas as palavras e expressões que assim se enquadram. Tudo que remetesse a algo vinculado à escravidão deveria ser extinto do vocabulário.

Anote aí: seria o caso de moleque.

Segundo o dicionário Houaiss, moleque é um termo com primeiro registro em nossa língua em 1716. Hoje, tem principalmente o significado de ‘menino novo, garoto de pouca idade’, mas originalmente seu significado era outro e bastante específico.

No romance O mulato (1881), do escritor maranhense Aluísio Azevedo, o senhor de engenho Sebastião fazia distinção no tratamento: “Preto é preto; branco é branco! Moleque é moleque; menino é menino!”

O senhorio estava aplicando o entendimento de moleque de sua época. O lexicógrafo português Raphael Bluteau, no primeiro dicionário monolíngue da língua portuguesa, o Vocabulario portuguez & latino, de 1712, assim apresentou o termo moleque: “pequeno escravo negro”.

No seu Diccionario da lingua portugueza (1891), o lexicógrafo carioca Antônio de Morais Silva trouxe mais informações: “Preto pequeno, e escravo. Dizia-se também do mulato, e era injuria aplicar este termo aos livres. Terminada a escravidão continuou o termo a ser do mesmo modo aplicado para designar rapazes de côr, e mesmo brancos, sem educação, garotos. § (fig.) Indivíduo de baixo procedimento, de más acções; brejeiro.”

Moleque – essa sim é uma palavra historicamente carregada de preconceito. O menino deseducado, arteiro, atentado, endiabrado, sempre pensando em traquinagens, era apenas o negro, segundo o antigo pensamento preconceituoso. É por isso que você encontrará nos dicionários moleque significando ‘garoto travesso’, ‘indivíduo sem integridade, canalha’, ‘mau-caráter e irresponsável’, ‘menino de rua’ e ‘diabo’.

Entretanto, é óbvio que, hoje, bastante ressignificado, podemos empregar o termo moleque em situações ultrapositivas. Vemos os rapazes se congratulando com um jovial “Ah, moleque!” e a turma de amigos se tratando por molecada; senhoras se gabando por serem molecas e pais (de qualquer etnia) orgulhosos de seus molequinhos.

Por que não há nenhuma proposta de banimento à palavra moleque já que ela se enquadra totalmente nos mesmos motivos de reprimenda a outras palavras?

É porque etimologia não justifica censura e o que vale sempre, sempre, sempre é o significado atual, avaliado unicamente dentro do contexto em que o termo é empregado.

Gostou? Então leia mais um tantão de histórias bacanas nos livros 100 etimologias para curtir e compartilhar e 50 pseudoetimologias para deixar de compartilhar.

📚 Referência: Dicionário etimológico da lingua portuguesa, por Antenor Nascentes (1952).
🖼️ Figura: Matthew Cain/Vecteezy (mai. 2023).

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