Quando o verbo ‘transar’ passou a ter sentido sexual?

Ninguém consegue escutar o verbo transar em músicas e outros áudios antigos sem dar uma risadinha. Não dá, não dá…

Olha só. Numa cena da nova O grito, de 1975, o jovem Guilherme combina de se encontrar com a vizinha, Estela. Quando tenta avisar seu pai, este o antecipa e diz: “Já sei. Você vai transar com a garota da cobertura.” A naturalidade da conversa só pode nos mostrar que o termo tinha outro significado, que não o do praticar o intercurso sexual. Ali, transar significava apenas ‘encontrar, dar um tempo com’, sem qualquer conotação safadística.

Ao telefone, Kátia diz a Orlando que vai se encontrar com uma “japonesa” (Midori), pois teria “algumas coisas para transar com ela”. Aqui, o verbo tem o sentido de ‘tratar’.

A revista Placar é ótima para acompanharmos a mudança do significado. Com suas antigas edições disponibilizadas no Google Books, é possível encontrarmos umas pérolas, como a do jogador José Francisco Morais, do Cruzeiro, que estava negociando seu passe para o outro clube e “chegou a transar [tratar] com os dirigentes do América” (n.º 459, fev. 1979).

O jogador Roberto Miranda, que jogava pelo Botafogo, no Rio de Janeiro, e já estava casado, afirmou numa entrevista à revista (n.º 169) que “tanto queria se transferir para o Corinthians que chegou a transar com alguns amigos seus de São Paulo’. Em junho de 1973, ele estreou no Timão.

E o que dizer do jovem Ivan, que só queria se corresponder com outros colecionadores de futebol de botão para trocar times? Assim foi a publicação na coluna de correspondências Camisa 12 (n.º 510, fev. 1980): “Curto muito a onde de jogo de botão […]. Tenho 13 anos e queria trocar times com outros Estados ou países.” A revista comentou: “Excelente idéia, Ivan. Vamos agitar esse troca-troca de norte a sul. A moçada que estiver a fim de transar com o Ivan é só escrever […].” Eitaaaa! Eu nem preciso dizer que o sentido aí é de ‘negociar, permutar’.

Antes dos anos 70, transar era ‘realizar uma transação, transigir, transacionar’. Aliás, o verbo vem de transa, redução de transação. A noção de ‘estabelecer relação de negócios’ foi simplificada a ‘estabelecer relação’.

Como gíria, transa significava ‘lance, assunto, negócio’. Só poderia ser. Doutro modo, como a Hering poderia fazer, na revista Manchete (1974), o anúncio duma camiseta feminina estampada com a frase “qual é a transa?” A gíria aí tem o mesmo valor de “qual é a boa?”. Não é coincidência que, em 1976, foi criada uma famosa rádio “jovem” chamada Transamérica FM.

Nos anos 80, transar foi assumindo o sentido de ‘curtir’. Em 1982, o ilustre Reginaldo Rossi fazia sucesso com a música A raposa e as uvas, lembrando com nostalgia da ingenuidade de sua juventude: “E tudo que a gente transava eram três, quatro cubas”. A banda Hanói-Hanói, em Totalmente demais (1986), cantava sobre uma mulher que “transou um Rolling Stone no Canadá’.

Então, se liga: uma roupa transada não era uma vestimenta amassada e com manchas. Era apenas uma roupitcha bacana, legal, estilosa. 

Há uma cena famosa da novela Vale tudo, de 1988, em que César, pego de cuequinha junto a Maria de Fátima, tenta acalmar o galhudo do Afonso dizendo “eu não transo violência!”. No remeique de 2025, o personagem repete a frase e depois profere o verbo com o sentido atual.

Dos vários sentidos que podia ter, ao final dos anos 70, transar só era sexual quando se dizia transar sexo. Depois, ao final da década de 80, transar passou a ser um eufemismo para ‘copular, ter sexo’. A gíria foi massificada após várias campanhas contra a aids, nos anos 90. O intuito era o de empregar um termo usado pela juventude.

Hoje, praticamente não há como falar em transar e transa e não associar esses termos ao vuco-vuco. Já pensou se tivesse vingado a ideia da montadora brasileira Gurgel Motores, que lançou em 1972 um carro anfíbio chamado Transa?

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📚 Referência: “Transa nova todo dia”: análise cultural do verbo transar via artigos da revista Capricho, por Alana Destri e Siderlene Muniz-Oliveira, na Revista Linguagens & Letramentos (jul.–dez. 2019).

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