
“O que é que há, pois, num nome? Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, cheiraria igualmente bem.”
Sinto muito, Shakespeare, mas essa frase só vale para a história de Romeu e Julieta, lá no século XVI. O dramaturgo inglês se referia aos sobrenomes dos dois amantes, que, sendo de famílias inimigas, impediam que os dois pombinhos ficassem juntos. Aqui no mundo real, o nome é praticamente o condicionante da existência aos olhos da humanidade – e por isso ele é tão importante.
Na Ciência, dá o nome quem descreveu algo pela primeira vez. O astrônomo dá nome ao cometa; o anatomista, ao novo órgão; o botânico, à nova espécie de planta. Agora, quando se trata de sociedade, está implícito no ato da denominação uma relação de poder. Quem tem direito de nomear um povo: ele próprio ou os demais? Quem nomeia uma região: quem vive lá ou quem é de fora? É uma contenda.
A Grã-Bretanha não liga que os argentinos chamem as Ilhas Falkland de Ilhas Malvinas, já que o território lhe pertence. O antigo Ceilão (nome dado pelos navegadores portugueses), ali pertinho da Índia, voltou a ser Sri Lanka só em 1972. Só em 2018 o pequeno país que conhecíamos como Suazilândia, no sul da África, conseguiu mudar seu nome para o original e hoje é oficialmente o Reino de Essuatíni. É que Suazilândia provêm do inglês Swaziland, na língua dos imperialistas britânicos.
Os povos também sofrem problemas nomenclaturais. Por exemplo, os grupos nativos norte-americanos, como os inuítes, iúpiques e aleútes, ainda lutam para não serem chamados de esquimós, um nome que veio de fora (exônimo).
Esse esforço identitário para valorizar a autodenominação é observado em vários lugares do mundo, onde houve colonização e, por aqui, no Brasil, não haveria de ser diferente.
Quando o navegador genovês Cristóvão Colombo ancorou na América Central, em 1492, e encontrou o povo taino ali nas Antilhas, achou que havia chegado às Índias – nome pelo qual os europeus se referiam ao subcontinente indiano. Assim, os habitantes daquela região receberam o nome de índios e, dali em diante, todo povo encontrado no Novo Mundo, seja lá de qual grupo fosse, era assim tratado pelos europeus.
No decorrer dos séculos, acompanhando o genocídio dos povos nativos da América, o termo índio’ se sedimentou no vocabulário português, na maioria das vezes, colocando no mesmo balaio povos originários distintos, anulando por completo suas diferenças étnicas e culturais. “São todos índios…” De algumas décadas para cá, porém, vimos emergir um movimento que pede a substituição do termo índio por ‘indígena’. Vinda da união do latim indu- (dentro) e -gena (nascido), indígena significa ‘natural de onde se vive, gerado da terra que lhe é própria’.
A corrente que pede a substituição do termo nasceu nos países hispanofalantes da América, cuja confusão das palavras é bem maior. Em espanhol, indio é um gentílico também usado para designar o nascido na Índia. No Brasil, não temos esse imbróglio, pois o daqui é o índio e o da Índia é o indiano.
A controvérsia da palavra índio, portanto, nem é majoritariamente etimológica como sugerem muitos dos que pedem a substituição do termo. (“Etimologia não justifica censura”, é o que sempre digo aqui.) Neste caso, o maior impasse com o uso do termo índio é a carga pejorativa, carregada de estigma e preconceito, que lhe foi atribuída por séculos.
Não se iluda: a solicitação para que se adote o termo indígena em vez de índio não é uma questão meramente etimológica, mas uma tentativa de se recuperar uma identidade social que foi cruelmente invisibilizada. É uma campanha genuína dos povos indígenas e de suas entidades de proteção que vale a pena seguir.
Mais do que isso, a melhor forma de valorizar e se referir devidamente a qualquer povo indígena é, sempre que possível, fazer uso do nome específico da etnia, pelo nome de seu povo. O IBGE reconhece mais de 300 etnias brasileiras: os caiapós, os ianomâmis, os crenaques, os caingangues, os carajás, os bororos, os tapuias et al.
Não é o caso, jamais, de repreender ou dar sermão (aquelas respostonas) a quem se habituou e falou índio a vida toda e talvez (ainda) não enxergue a necessidade dessa substituição. Falar ‘índio’ não é errado; só não é a melhor forma. Não há motivo para criar caso para além disso. É preferível alguém que trate o índio com dignidade e igualdade do que outrem que seja indiferente ou antagônico ao indígena. Então, vamos com calma…
Qualquer mudança nomenclatural exige tempo e entendimento. A censura só repele; a Educação que transforma é paciente e agregadora. Quem sabe assim um dia, Shakespeare, a rosa seja referida como rosa por todos, sobretudo pela própria rosa.
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📚 Referência: Índio ou indígena? Entenda a diferença entre os dois termos, por Emily Santos, no portal G1 (abr. 2022).
🖼️ Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil (abr. 2025).
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