
“Cê é bonito, cê é bonito, cê é bonito demais! Ocê é um cara manêro!” (RAIMUNDOS, 2000).
Sim, o Reggae do Manêro é um reggae maneiro. Aliás, maneiro é um termo maneiro. No Brasil, é considerado uma palavra-ônibus – um vocábulo genérico aplicado a gentes e coisas com vários sentidos positivos: uma roupa maneira (bonita), um professor maneiro (competente), uma mulher maneira (interessante), uma festa maneira (divertida), etc.
Maneiro é legal; maneiro é massa! Assim como legal e massa, maneiro é uma gíria que não nasceu gíria. Ela nos apareceu no século XVIII com um significado bem diferente; maneiro vem de mão.
Então, comecemos pela mão. Em latim, mão era manus. A letra N de manus acabou caindo fora (síncope), mas em várias palavras derivadas dela, em português, a letra foi conservada: manuscrito (escrito à mão), manual (movido à mão), manual (livro de mão), manusear (tocar com as mãos), manobra (trabalho manual), manicure, manopla, manivela, manufatura, manutenção, manejar, manipular, manifestar e mais um tantão de exemplos maneiros.
A partir de manus, havia o adjetivo manuarius, que significava ‘da mão, pertencente à mão’. Era equivalente ao nosso manual (labor manuarius = trabalho manual). O modo como se trabalhava à mão algum objeto era a ars manuaria (arte manuária, manual). No latim medieval, manuaria ficou por manaria e, por fim, no século XIII, em português, maneira.
A partir daí, o sentido de maneira deixou de estar ligado às mãos para enfatizar mais o proceder, o modo, tanto de como as coisas ocorrem (“o carro só funciona dessa maneira”) como do estilo com o qual as pessoas o desempenham (“Naquele amor/ à sua maneira” – Capital Inicial). À forma de se lidar com o social, com cortesia e educação, falamos das boas maneiras.
Imagine que legal seria se cada artista tivesse a liberdade artística para pintar à sua maneira? Foi assim que surgiu o Maneirismo, um estilo artístico italiano, de 1520 e 1610, cujos artistas procuravam expressar uma identidade própria, utilizando a ‘maneira’ como um conceito de estilo próprio e sofisticado.
Manuarius também evoluiu para maneiro, mantendo o sentido de ‘relativo à mão’. Em 1728, já se falava, por exemplo, em ‘aves maneiras’ – aves de rapina criadas na mão do dono. Depois, os objetos leves e fáceis de manusear, que não oferecem dificuldade alguma no manejo, também passaram a receber o adjetivo maneiro.
Por exemplo, o dicionarista português Solano Constâncio reclamava do peso dos dicionários de francês-português de sua época: “são de hum tamanho tão volumoso e pouco maneiro, que não podem servir senão ao estudo de gabinete”. Por isso, em 1811, criou um dos primeiros dicionários portáteis de francês, o que conhecemos por ‘livro de bolso’ – aí, sim, um livro muito maneiro.
Só que, lá pela segunda metade do século XIX, apareceu o verbo amaneirar vindo lá de boas maneiras. Amaneirar era dar refinamento, agir de modo calmo, moderado. No Brasil, tempo depois, ficou mais popular a sua variação sem o prefixo a-. Até hoje, o povo prefere dizer maneirar para denotar que precisa diminuir a intensidade de um comportamento (“preciso maneirar na bebida”; “o frio já deu uma maneirada”).
Então, aquele termo maneiro que já existia passou a abranger mais um significado, o de calmo, delicado, acomodado, de boa.
Até a década de 1980, várias matérias da revista futebolística Placar ainda empregavam maneiro com esse sentido. Numa publicação de janeiro de 1973, afirmaram que a Ponte preta era um “time velho e maneiro [acomodado]”. Na de abril de 1976, o zagueiro Pradera, do ABC, de Natal, afirmou: “Sou valente, mas sou maneiro [moderado]. Ainda não quebrei a perna de ninguém”.
Olha que curioso: na edição de novembro de 1986, Cristóvão, meio-campista do Corinthians, disse que gostava de ouvir Caetano Veloso e Gilberto Gil e que não gostava de pegar carona no carro de Casagrande por causa das músicas. É que Casagrande era um notório metaleiro enquanto Cristóvão preferia um “som mais maneiro” [calmo]. Eh, eh… Hoje falaríamos que o roque é mais maneiro.
Maneiro continuava a ser associado a comedimento nalguns ambientas, mas, no Rio de Janeiro, desde pelo menos a década de 70, o termo foi ganhando outro sentido. Em 1975, uma edição da revista Manchete tratou de explicar a gíria dos surfistas da capital. Para eles, a onda boa era aquela nem fraquinha nem violenta – uma onda maneira. Daí então: ‘praia maneira’, ‘dia maneiro’, ‘menina maneira’. Rapidamente, a juventude carioca aderiu à gíria empregando maneiro para tudo. Maneiraço!
Com o tempo, o maneiro ‘comedido’ foi deixado de lado, suplantado pelo maneiro ‘bacana’ que servia para qualificar tudo. É claro que esse maneiro de mil e uma utilidades não ficou só no Rio. Os Raimundos, por exemplo, vindos de Brasília, são uma banda maneiríssima!
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📚 Referência: Diccionario da lingua Portugueza, por António de Morais Silva (1813).
🖼️ Figura: ChatGPT (set. 2025).
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