A origem da expressão ‘não adianta chorar sobre o leite derramado’

Não adianta chorar sobre o leite derramado significa ‘não vale a pena lamentar o que não pode ser desfeito’ ou ‘é tarde demais para se fazer algo’. É uma frase de consolação que geralmente se diz com o sentido de ‘esqueça isso, bola pra frente’.

“— Oh, não! Minha bola de futebol está furada. Paguei tão caro nela!

— Ih, já era! Não adianta chorar sobre o leite derramado.”

Há expressões parecidas. Com a mesma intenção, podemos dizer não chorar a morte da bezerra e não adianta gritar por são Bento depois que a cobra mordeu. Eu gosto mais das rimadas: depois do mal feito, chorar não é proveito e chorar sobre o leite derramado é demasiado.

Mas, pensemos juntos: por que leite e não outro líquido? No Brasil, sei que o pessoal choraria muito mais pela entornadura dum copo de cerveja do que de leite.

O porquê do leite está numa antiquíssima história, cuja lição moral nem era sobre o produto perdido (muito menos sobre leite), mas sobre devaneios de riqueza.

Panchatantra é a mais antiga coleção de fábulas indianas, coisa do século III a.C. Numa de suas histórias, conta-se que um brâmane muito pobre ganhou uma grande quantidade de farinha e não a dividiu com sua aldeia. Deixou-a num pote de barro pendurado ao lado da cama, para que pudesse vigiá-la. Ao dormir, sonhou que vendia a farinha superfaturada aos aldeões e assim conseguiria depois comprar cabras.

As cabras procriando seriam trocadas por vacas. As vacas dariam muito leite, o que o tornariam muito rico com a venda de produtos lácteos, como manteiga e coalhada. Por ter enricado, um ricaço lhe ofereceria em casamento a filha, com quem teria um herdeiro.

Nesse sonho ainda (que sonho, hein?!), o pequeno filho era muito travesso e fazia barulho o dia todo. O brâmane teria pedido à esposa que controlasse o filho, mas, ocupada com suas tarefas, a esposa não lhe deu ouvidos. Zangado, o homem a chutou no sonhos, mas, na realidade, chutava o pote com farinha, que caiu e se quebrou.

A moral da história é que não se deve construir castelos no ar, ou seja, não é bom ter planos ou esperanças extravagantes, fora do alcance. Eita!

Essa fábula ecoou por outros lugares do mundo com algumas variações. Ora o pote era de mel, de manteiga, de banha, de óleo… No Ocidente, o primeiro registro de história semelhante é do século XIV. O conto se espalhou por todo canto que nem fogo em mato seco.

No Auto da Mofina Mendes (1534), de Gil Vicente, Mofina Mendes é uma pastora pobre e azarada, que recebe um pote de azeite como pagamento. Com o pote sobre a cabeça, dança a assim canta:

“Vou-me à feira de Trancoso/ logo nome de Jesus/ e farei dinheiro grosso./ Do que este azeite render/ comprarei ovos de pata/ que é a coisa mais barata/ que eu de lá posso trazer./ E estes ovos chocarão;/ cada ovo dará um pato/ e cada pato um tostão/ que passará de um milhão/ e meio, a vender barato./ Casarei rica e honrada/ por estes ovos de pata/ e o dia que for casada/ sairei ataviada/ com um brial de escarlata;/ E diante o desposado/ que me estará namorando/ virei de dentro bailando/ assim desta arte bailado, esta cantiga cantando.”

E andando enlevada no baile, o pote lhe cai da cabeça. Pobrezinha…

O fabulista francês Jean de Le Fontaine compilou os contos populares de sua época e os publicou entre 1668 e 1694. Foi em 1678 que ele popularizou a fábula La Laitière et le pot au lait (A leiteira e o jarro de leite).

A cantilena é a mesma: uma jovem leiteira, carregando leite para vendê-lo na cidade, fica a imaginar os frutos de sua transação. De lucro em lucro, ela chegaria à opulência e teria um bom casamento. Pensando na grande alegria que teria ao se ver conduzida à igreja pelo marido a cavalo, ela bateu com o pé no chão, pensando em esporear o cavalo, mas seu pé escorregou; ela caiu na vala e derramou todo o leite.

Essa versão do leite acabou se tornando a mais popular do conto do pobre sonhador que perde exatamente o objeto desencadeador de seu sonho. Daí, derivou-se a expressão em francês (il ne sert à rien de pleurer sur le lait versé) e em inglês (don’t cry over spilled milk).

Dizem que pior que o leite que inculca sonhos de riqueza é esse aí que se derrama. Não sei não… O leite derramado ao menos serve de desculpa. “Eu tinha tudo para ser jogador de futebol profissional, mas machuquei o joelho.”

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📚 Referência: Panchatantra ou fábulas de Bidpai, no blogue Páginas sonhadas (set. 2025).

🖼️ Figura: ChatGPT (set. 2025).

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