A origem das letras garrafais

“Herrar é o mano.” Todo mundo erra, menos o alecrim dourado e o dicionário. Costumamos atribuir aos dicionários a máxima e imaculada autoridade sobre a significação das palavras, só que, por serem produções humanas, claro!, os pais dos burros também se equivocam. Dessa vez, nalguns famosos dicionários da língua portuguesa, eu encontrei um equívoco sobre uma palavra que eu sempre achei engraçada: garrafal.

Você já a empregou nalguma sentença? O pai dos burros a apresenta como um adjetivo que significa ‘que possui forma de garrafa’, mas, sinceramente, nunca ouvi alguém utilizá-la nesse sentido. Já pensou?: “Não gosto muito da minha namorada, Doroteia, pois ela é um tanto garrafal.” 🥴

O que eu sei é que garrafal equivale a ‘grande, graúdo’. Usamos especialmente para escritas qualificar as letras grandonas, bem legíveis. “Escrevi numa faixa em letras garrafais: Doroteia, eu te amo!”

A grande dúvida minha era entender por que garrafa participaria da construção desse vocábulo. O dicionário Houaiss, por exemplo, explica que ele é formado por garrafa mais o sufixo -al, que significa ‘relativo’. É o mesmo sufixo que encontramos em comércio → comercial, domingo → dominical, voz → vocal. (Cheguei a pensar garrafal como uma plantação de garrafas, rsrs.)

Mas por que a garrafa seria parâmetro para algo grande? Meu prezado leitor, pelo preço que estão as coisas, garrafa grande de qualquer bebida está virando luxo. De reduflação em reduflação, a moda agora são as pitchulinhas. A última vez que eu vi um garrafão foi numa partida de basquete.

O mestre Deonísio da Silva, grande etimólogo e popularizador dessa ciência no Brasil, apresentou uma explicação relativamente convincente, em sua extinta coluna da revista Caras: “É que, no começo da imprensa tipográfica, na fabricação dos títulos das notícias eram usados de modelo os rótulos das garrafas.”

Deonísio há de me perdoar pela ousadia – assim como Doroteia perdoou o cara lá da faixa –, mas preciso divergir. Garrafal tem origem espanhola e está relacionada a uma fruta que pouco conhecemos no Brasil, a ginja.

O fruto da ginjeira (Prunus cerasus) é muito parecido com o da cerejeira (Prunus avium), mas tem a polpa mais firme e é mais ácido, sendo mais empregado em compotas e licores. Em Lisboa, o licor ginjinha é muito popular! Talvez você conheça uma variedade de ginja chamada amarena, que vem aparecendo em várias marcas de sorvete.

Em Portugal, há duas principais variedades de ginja: a ginja-galega e a ginja-garrafal. O pomólogo português Antônio Máximo Lopes de Carvalho, na edição de 1887 do Jornal de Horticultura Pratica, explicou que “as melhores variedades portuguezas são a Gallega – mediana, vermelha, muito acida – e a Garrafal – grande, espherica”.

Isso! Isso! O adjetivo garrafal para algo que é grande, maior que a média, vem daí.

Por fim, o lexicógrafo espanhol Sebastián de Covarrubias já havia arrematado a questão lááááá em 1611, no seu Tesoro de la lengua castellana o española (o primeiro dicionário monolíngue de espanhol). O linguista afirmou que a ginja-garrafal teve esse nome porque foi tal variedade proveio da enxertia da ginja num porta-enxerto de Ceratonia siliqua. Hoje, denominamos essa ceratônia como alfarroba, mas à época se falava garrofa, junto a garroba e algarroba (do árabe al-karrub).

As cerejas-garrafais (igualmente enxertadas em alfarrobas) eram também maiores que outras cerejas. Então, garrafal passou a significar ‘graúdo’. Os escritores espanhóis começaram então, por metáfora, a falar de uvas garrafais, gritos garrafais, mentiras garrafais… até que chegaram às letras garrafais.

É instintivo fazermos tal associação, mas garrafal, portanto, nada tem de garrafa em sua morfologia e etimologia. Dicionários como Aulete, Houaiss e Michaelis, além de escritores como Deonísio, terem associado a palavra com garrafa é um deslize natural, pequenino comparado à obra garrafal que nos têm a oferecer.

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📚 Referência: Diccionario etimológico de la lengue castellana: (ensayo) precedido de unos rudimentos de etimología, por Pedro Felipe Monlau (1856).

🖼️ Figura: ChatGPT (ago. 2025).

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