
Não tem jeito. Há muito sapato por aí que foi lustrado com o suor alheio. Gente que faz cortesia com o chapéu dos outros existe desde que o mundo é mundo. O plágio é um problemão atual, mas de origem bem antiga. Apresento sua interessante historia aqui e garanto que não plagiei ninguém para escrever este texto.
O Artigo 184 do Código Penal deixa claro que plágio é uma coisa muito, muito, muito feia de se fazer. Dá multa e cadeia de até um ano. Acontece que plágio já era algo antiético há muito tempo, mas com outro sentido.
Os europeus da Antiguidade usavam uma rede de caça chamada em latim de plaga. Com ela, podia-se caçar tanto animais selvagens quanto humanos. É daí que surgiu a palavra plagium para designar um sequestro. Não se raptava gente para pedir resgate, não, mas para vender a vítima como escravo.
Então, o plagium já era uma prática execrada. O historiador romano Suetônio explicava, no século I d.C., que havia duas formas de plagium, ambas severamente punidas pelo imperador Augusto: vender cidadãos livres como escravos e roubar escravos para a vendê-los. O plagiarius vendia algo que não lhe pertencia, que não era seu por direito.
Seu contemporâneo, o poeta romano Marcial, foi o primeiro a fazer uma analogia entre o crime da venda de escravos raptados com o uso de textos copiados. Ao saber que outro poeta apresentava uma produção que era sua, Marcial o chamou de plagiarius, isto é, plagiador.
De lá para cá, o plagium escravista se acabou, mas o plágio literário continuam até hoje. Existe um tipo de página nas redes sociais que é a mais vil de todas: a página predatória. É aquela não produz nada, não cria nada e vive só de ‘copia e cola’. Sua existência se baseia apenas na recolha de conteúdos diversos para publicá-los como se fossem seus, sem o menor pingo de vergonha.
São dezenas de publicações plagiadas diariamente com o intuito de inundar o ‘feed’ dos seguidores que, ingenuamente, agradecem à página pelo conteúdo.
Chacrinha disse que “na televisão, nada se cria, tudo se copia”. Mal sabia ele do que viria depois, com a internet…
Hoje em dia, ter uma página autoral em rede social é um baita exercício de paciência e resignação. Gasta-se tempo para a pesquisa do conteúdo, a elaboração do texto e a produção da imagem; é preciso expertise para se certificar que não se está falando bobagem; há de se ter, no mínimo, coragem, para assinar com seu próprio nome toda publicação (dar a cara a tapa) sabendo que a crítica sempre aparece.
O plagiador – covarde, incompetente e parasitário – observa tudo e se aproveita do êxito alheio. Seu “trabalho”, então, é só o de dar um côntrol-cê-côntrol-vê no texto, baixar a figura da publicação e repostar o conteúdo sem dar os devidos créditos.
É a pura expressão dum ditado bem irônico: “Esperto é o dono da sauna, que ganha dinheiro com o suor dos outros.”
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📚 Referência: Sobre a identidade do plágio em uma perspectiva wittgensteiniana de linguagem, dissertação de Silvia Teixeira Barroso Rebello (2006).
🖼️ Figura: ChatGPT (ago. 2025).
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