
Na geopolítica mundial, o que mais se fala é do conflito no Oriente Médio. Como eu não sei (nem quero) dar pitaco em contendas internacionais, trago-lhes aqui uma questão interessante. Você já se perguntou sobre o motivo de a região do Oriente Médio ter esse nome? Por que Médio?
Não sei se você está sabendo, mas o termo é polêmico. À época da independência da Índia, em 1947, Jawaharlal Nehru, o primeiro primeiro-ministro da Índia, já solicitava que não se empregasse o termo Oriente Médio, mas Ásia Ocidental. Oxe, mas qual o motivo dessa orientação?
Vamos lá! O problema inicial já está na falta de consenso sobre quais países pertenceriam ao Oriente Médio, uma região que vai do lesto do mar Mediterrâneo ao entorno do golfo Pérsico. Sem dúvidas, consideram-se médio-orientais os países ao redor da península Arábica: Arábia Saudita, Barém, Catar, EAU, Irã, Iraque, Iêmen, Israel, Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Palestina e Síria. A depender da fonte, participam Afeganistão, Chipre, Egito, Paquistão, Turquia. Há quem inclua outros países africanos e os caucásicos.
Antes, claro, havia outros nomes dados à região. O Mundo Árabe sempre se dividiu em duas partes: a ocidental Magrebe e a oriental Maxarreque. Magrebe, que vem do árabe Al-Maghrib (oeste, poente), engloba países norte-africanos sob influência árabe: Argélia, Líbia, Marrocos, Mauritânia, Saara Ocidental e Tunísia. Maxerreque vem de Al-Mashriq (leste, levante, nascente) e inclui o Sudão.
Podemos achar estranho o termo Maxerreque (ou Mashriq) porque, simplesmente, ele foi apagado das nossas aulas de Geopolítica.
A Grã-Bretanha já rodeava a Ásia desde o século XVI, partindo muito atrás na corrida colonialista europeia iniciada pela Espanha e por Portugal. Depois de perder suas Treze Colônias, na América, em 1783, aquele paisinho (pouco maior que o Paraná) se dedicou ao domínio na África, na Ásia e na Oceania, vindo a se tornar o maior império da história, em 1920. Que Magrebe e Maxerreque, o quê! No seu auge, dizia-se que “o sol nunca se põe no Império Britânico”. Eita!
Desde que o mundo é mundo, sabemos que quem manda é quem dá o nome. Em 1902, o estadunidense Alfred Mahan publicou um artigo numa revista londrina se referindo à região entre a Arábia e a Índia como Middle East. O artigo foi reimpresso no jornal The times, dos EUA, popularizando assim o novo nome para a região.
No Brasil, costumamos traduzi-lo como Oriente Médio, mas em Portugal é Médio Oriente. Médio (do latim medius), nesse caso, significa ‘de posição intermediária, que fica no meio’.
Temos Ensino Médio porque há um anterior (o Ensino Fundamental) e um posterior (o Ensino Superior); temos Idade Média porque é o período entre a Idade Antiga e a Moderna; médio é o dedo central da mão; nossa orelha é dividida em orelha externa, orelha média e orelha interna.
Então, se há um Oriente Médio, há outros dois. Até a década de 40, era frequente chamar de Oriente Próximo (Near East) a região da Anatólia (atual Turquia) e Bálcãs (Grécia e países adjacentes) e de Extremo Oriente (Far East) a que vai da China à Indonésia e que por vezes inclui a Rússia.
Hoje, depois de tantas mudanças geopolíticas, Oriente Próximo e Oriente Médio são entendidos como termos intercambiáveis e Extremo Oriente caiu em desuso.
Oriente Próximo: próximo de quem? Da Europa! Por isso, considera-se que os três Orientes são termos eurocêntricos, sem uso prático pelos próprios países asiáticos. Há, portanto, uma intenção global de se referir à região como Sudoeste Asiático ou Ásia Ocidental. É o que a ONU propõe desde os anos 50. Assim, a Europa vai deixando de ser o ponto de referência e a Ásia voltando a ter seu lugar na história mundial, sem ser quintal do Ocidente.
⁂ Gostou? Então leia mais um tantão de histórias bacanas nos livros 100 etimologias para curtir e compartilhar e 50 pseudoetimologias para deixar de compartilhar.
📚 Referências: O que é Oriente Médio?, por Bruno Bartel, na revista Diáspora (fev. 2019); e A guerra imperialista na Ásia Ocidental, com José Arbex, no podequeste Internacionalizemos a luta! (jul. 2025).
🖼️ Figura: TownDown/Wikipedia (jan. 2023).
Deixe um comentário