A origem do ‘despacho’

É como diz aquele velho deitado: “quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece.” Assim é comigo. Pessoal, para ter um pouco de paz na internet, eu tento fugir das pseudoetimologias, mas elas crescem que nem mato e me rodeando que nem mosca. E, como diz Ana Carolina, em Quem de nós dois (2001), “e cada vez que eu fujo, eu me aproximo mais”.

Eu que sempre me considerei despachadão, fico todo embaraçado quando encontro um etimologia de boteco (pseudoetimologia) como a que li sobre a palavra despachar.

Numa postagem do perfil do Instagram dum famoso “portal de jornalismo”, afirmava-se que muitas expressões de nossa língua nasceram dos contextos das religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda. Até aí tudo bem, pois de fato contamos com termos como afoxé, axé, babalorixá, calunga, ebó, orixá e Pombajira.

Vi, porém, na publicação, a seguinte explicação para a origem do verbo despachar: “despachar algo significa resolver ou mandar embora, mas na Umbanda e no Candomblé, despacho é a entrega ritual feita aos orixás e entidades para abrir caminhos, proteger ou afastar energias negativas. A ideia migrou para a linguagem popular.”

Eita! Assim sendo, quando um juiz de direito dá um despacho, a transportadora despacha a encomenda ou o passageiro do avião despacha as bagagens, a origem do nome dessas ações estaria nas religiões afro-brasileiras? Então, vamos incorporar o espírito investigativo e despachar nossas dúvidas para o além.

Despachar é vocábulo antigo, que nos apareceu no século XV, mas sua origem original está originalmente na Antiguidade, no latim. Tudo começou com os pés…

, em latim, é pes. Um tipo de algema para prender os pés era chamado pedica (pronuncia-se /pédika/). Essa palavra evoluiu para o português como pega (argola de ferro com que se prendiam os escravos fujões) e peia (corda para amarrar os pés dos animais).

Colocar uma pedica num animal ou nalguém era impedicare. Na língua francesa arcaica (do século IX ao XIII), esse verbo evoluiu para empeechier e ficou como empêcher no francês moderno. Para o português, o termo passou a empachar, significando ‘acorrentar, pôr em ferros’ ou, figurativamente, ‘obstruir, dificultar’.

Se empeechier era ‘pôr impedimentos, impedir’, seu antônimo, despechier, era justamente ‘retirar impedimentos, expedir’. Essa palavra do francês arcaico ficou atualmente como dépêcher e, em nossa língua, despachar. [Alguém aí se lembra daquela banda inglesa de música eletrônica dos anos 80, o Depeche Mode (Despacho de Moda ou Boletim de Moda)?]

Empachar vs. despachar… Olha que interessante! Nesse sentido, o latim, que contava com impedire (prender os pés) e expedire (soltar os pés), nos rendeu impedir e expedir. A palavra peia, que já mencionei, nos produziu pejar’ (atrapalhar, encher) e despejar (livrar, esvaziar). Está tudo ligado a deixar ou não os pés livres para caminhar.

Por caminhar, então, despachar é ‘encaminhar, expedir, enviar, permitir que se avance’, sem empecilhos.

É por isso que o sujeito despachado é aquele que faz tudo com desenvoltura, sem enrosco, que é espontâneo, arrojado, ágil. Despachante é o que desenrola nossa vida com as burocracias das repartições públicas. Para o devido encaminhamento das almas ao Céu, há quem seja devoto de Nossa Senhora do Bom Despacho.

Um despacho é um envio ou uma deliberação. Despachamos bagagem, encomenda, correspondência, mercadoria, documento, requerimento, ofício, processo, sentença… Despachar também é ‘mandar embora, despedir, dar fim’: “o chefe despachou o funcionário; a garota despachou o namorado; o tenente João Bezerra da Silva despachou Lampião (desta vida)”.

Despacho, no sentido tomado pelo candomblé e pela umbanda, nunca figurou nos dicionários até o século XX.

Agora, sabemos. Na cerimônia do padê, oferecem-se comidas e bebidas ao orixá Exu, para que não perturbe a festa e para que consiga as boas graças dos orixás. Por isso é que se diz despacho de Exu e não a Exu. Outro entendimento é que o despacho é uma oferenda feita a Exu, para que desfaça trabalhos de quimbanda (segmento da umbanda que supostamente invoca espíritos do baixo mundo astral para prejudicar indivíduos) e abrir caminhos.

Hoje, nos diversos culto afro-brasileiros, o despacho tem um sentido mais generalista, como uma oferenda a alguma entidade sobrenatural que se deposita num lugar determinado (cachoeira, mata, encruzilhada, etc.) para que ela interceda no sentido desejado.

Olha, eu estou quase fazendo um, pedindo que o povo pare de propagar pseudoetimologias. Axé!

Gostou? Então leia mais um tantão de histórias bacanas nos livros 100 etimologias para curtir e compartilhar e 50 pseudoetimologias para deixar de compartilhar.

📚 Referências: Candomblé afro-brasiliano, por Alice Santana (1998); Dicionário da umbanda, por Altair Pinto (2007); e Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa (2009).

🖼️ Figura: printe duma publicação no Instagram (jul. 2025).

🗣️ Sugestão: Alves Scaloviski.

Deixe um comentário