
Outro dia, numa publicação sobre a origem da sobremesa romeu e julieta, eu falei que os portugueses adaptaram a receita europeia da marmelada trocando o marmelo pela goiaba, que é uma fruta nativa brasileira. Nisso, muita gente me procurou em reservado para me alertar que a goiabeira (Psidium guajava) seria, na verdade, uma árvore estrangeira, um planta exótica e invasora. Epa! ¿La guayaba no es brasileña? Ai, caramba!
Então, mandaram-me um vídeo em que um paisagista recomenda que não se plante pés de goiaba perto das áreas de vegetação nativa. A danada da árvore estaria crescendo sem controle em áreas de regeneração florestal.
Bom, eu, que sempre achei que a “maraviosa” goiaba do Chico Bento fosse tão brasileira quanto o vira-lata caramelo e o futevôlei, fui investigar.
O primeiro registro da fruta pelos europeus apareceu em 1514 pelo escritor espanhol Gonzalo de Oviedo, que participou na colonização do Caribe. Oviedo mencionou uma tal de guayabo (palavra de origem aruaque) e disse que as goiabas eram “frutas com muitas sementes que causam incômodo a aqueles que a comem pela primeira vez”.
Segundo o naturalista alemão George Marcgraf, na primeira obra de História Natural do Brasil, Historia Naturalis Brasiliae, de 1648, os indígenas brasileiros a chamavam por araçá guaçu (araçá grande) e por guayaba.
Quando Lineu atribuiu nome científico à espécie, em 1753, resolveu criar um gênero só para ela. Nomeou o gênero Psidium a partir do grego antigo psídion, que significa ‘romã’. É que os europeu comparavam as goiabas às romãs; ambas são frutas recheadas de sementes. (A goiaba chegou à Bélgica, por exemplo, com o nome de pera-granada.) O nome cientifico, então ficou Psidium guajava.
Ao registrar a origem da goiaba, Lineu apenas escreveu India, tratando assim o continente americano, que naquela época era chamado Índias Ocidentais. A maioria dos livros atuais que tratam da árvore informam que é uma espécie americana, que ocorre naturalmente do México ao Uruguai. E esse “naturalmente” inclui o Brasil? Quanto à origem, há quem sugira o norte da América do Sul, o nordeste do Brasil ou a América Central. O que se fala por aí é que as populações humanas pré-colombianas foram as disseminadoras da planta pelo continente, o que justificaria classificá-la como exótica.
Os indícios mais antigos de goiaba na dieta humana datam de 7 mil anos, oriundos de resquícios encontrados em sítios arqueológicos da costa do Peru. No sítio arqueológico de Sernambetiba, em Guapimirim, no Rio de Janeiro, foram encontradas vestígios goiabísticos com mais de 4 mil anos – o que nos mostra que, quando Cabral aportou na Terra de Santa Cruz, já havia indígena se deliciando com uma bela goiaba.
Por todo o século XVI, os registros escritos sobre a goiaba abundam em vários pontos da América do Sul e Central. O padre espanhol Gaspar de Carvajal observou goiabeiras no vale do Amazonas, perto dos Andes, em 1541–1542. As crônicas de Oviedo e Valdés, do século XVI, relatam o uso da goiaba pelos guaranis no Sudeste e Sul do Brasil e no Paraguai. A goiaba também foi registrada na Bahia, Pernambuco e Paraíba por cronistas portugueses entre 1582 e 1618.
Apesar de tantos indícios, agora e finalmente, podemos registrar em cartório a certidão de nascimento da goiabeira. Segundo dois fantásticos artigos de autoria da equipe da bióloga colombiana Edna Arévalo Marín, de 2021 e 2024 (referências ao final do texto), após pesquisas arqueológicas e genéticas, podemos atualmente afirmar que:
🌳 a espécie ancestral da goiaba é da Patagônia;
🌳 a goiaba surgiu entre o Mioceno Médio e Superior (de 16 a 5 milhões de anos atrás), numa savana que existia onde hoje é o chaco úmido (Paraguai e Argentina) e cerrado (Brasil-sil-sil!);
🌳 a megafauna do Plistoceno (de 2,6 milhões a 11.700 anos atrás) propiciou a dispersão das goiabeiras pela mata Atlântica e pelo Nordeste do Brasil.
🌳 com a extinção da megafauna, a expansão da distribuição geográfica da goiaba (chegando até ao México) se deu como consequência das migrações, trocas e comércio dos povos indígenas, em tempos pré-colombianos.
🌳 a domesticação da goiaba ocorreu entre 10 mil e 6 mil anos atrás, no sudoeste da Amazônia, na região de Rondônia.
Então, meus amigos, por fim, concluímos que a goiaba é mais brasileira que a farofa, o escorredor de arroz e o Bradesco. É bom se lembrar disso antes de sair por aí serrando as pobrezinhas. Seria ótimo o pessoal parar de se preocupar com a goiaba e desse mais atenção ao problemão atual doutras plantas como a leucena (Leucaena leucocephala) e o margaridão (Tithonia diversifolia).
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📚 Referências: The taming of Psidium guajava: natural and cultural history of a neotropical fruit, por Edna Arévalo-Marin et al., na revista Frontiers in Plant Science (set. 2021); e Genetic analyses and dispersal patterns unveil the Amazonian origin of guava domestication, por Edna Arévolo-Marin et al., na revista Scientific reports (jul. 2024).
🖼️ Figura: ChatGPT (ago. 2025).
🗣️ Sugestão: Alan Cassiano Secorun.
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