
Desprevenido, quebrado, necessitado, precisado, lascado, na pendura… que nada! No Brasil, quando o sujeito está sem dinheiro, não há nada mais representativo do que dizer que se está na pindaíba. O problema é que, além de não ter um tostão furado, o pé-rapado não sabe o que significa a tal pindaíba para estar nela.
Na questão da grana, não tenho como ajudar, pois também ando mais quebrado que promessa de bêbado, mas na parte do significado, à luz da Etimologia, eu posso dar uma mão. Se não conseguimos o fim da pindaíba, que tenhamos ao menos sua origem.
Muitos leitores me enviaram a publicação dum perfil do Instagram que trata sobre curiosidades culinárias. Sem fonte nem nada, a postagem afirmava que pindaíba é “uma fruta” 😯. Olha só o texto que viralizou:
“é uma fruta pequena, doce, de casca fina e polpa branca, prima da graviola, e que cresce escondida no interior do Brasil especialmente no Cerrado e Sudeste. Por muito tempo, ela foi considerada fruta de quem não tem muita opção. Gente simples, da roça, colhia pindaíba direto do mato, porque era o que a terra dava, sem precisar comprar, sem luxo, sem escolha. Era fruta da resistência, do improviso e da escassez. E foi assim que ela virou metáfora.”
Eita! Quanta bobagem!
Pindaíba nunca foi nome de fruto (ou fruta), mas de árvore – aliás, de várias espécies arbóreas. É um dos nomes comuns de árvores anonáceas (portanto, primas do araticum, da atemoia, da fruta-do-conde e da graviola). As mais populares são a Guatteria vilosissima (embira-pindaíba), a Xylopia aromatica (embira-branca), a Xylopia frutescens (pau-de-embira), a Xylopia sericea (pindaíba-vermelha) e a Duguetia lanceolata (biribá).
O fruto desta última espécie até é comestível, mas sua polpa é fina, pouco doce e nada substanciosa 😐. Se alguém na miséria dependesse dos frutos que se encontram no mato, a pindaíba certamente não seria a salvação da lavoura. Afinal de contas: como “uma fruta” tão desconhecida participaria duma expressão tão famosa?
Não é pelo fruto mirrado que o termo se popularizou. As pindaíbas são velhas conhecidas dos indígenas brasileiros, que as procuravam por duas grandes utilidades. A primeira é a sua casca – fibrosa, fina e forte – que é usada para se fazer cordas, conhecidas como embira (do tupi mbira: que tem fibra). Por isso, a expressão estar na embira é a mesma coisa que estar na pindaíba.
A segunda utilidade vem dos galhos, compridos e flexíveis, que servem como ótimas varas para pescaria. Pindaíba (pindaíva ou pindaúba) vem do tupi-guarani pindá-iba, pela união de pindá (anzol) e iba (planta). Por isso, a pindaíba já foi também conhecida como pau-de-anzol.
Segundo Batista Caetano, notável especialista da língua guarani do século XIX, estar na pindaíba significava “não ter o que comer além do que lhe cai no anzol”; “sem vintém, reduzido à vara de anzol para viver”.
Então, estar na pindaíba não é o pior de tudo; não é o fundo do poço, nem o fim do jogo, pois ainda há a esperança de se conseguir um pescadinho.
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📚 Referência: Tesouro da fraseologia brasileira, por Antenor Nascentes (1966).
🖼️ Figura: printe dum perfil do Instagram (jun. 2025).
🗣 Sugestões: Juliana Klasen, Karina Mendes e Raquel Susin.
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