A origem da expressão ‘lavar a égua’


Ouro Preto pode não ser mais a capital de Minas Gerais, mas certamente continua sendo a Capital da Pseudoetimologia. Ave Maria! Nessa minha última visita à cidade histórica, tive o “prazer” de observar ao vivo um guia de turismo contar à turistada sobre a origem da expressão lavar a égua. Por causa dessa explicação, muitos manuais de censura a incluíram em sua lista de termos condenáveis.

De acordo com a Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, que publicou, em 2020, a cartilha O racismo sutil por trás das palavras, você não pode empregar lavar a égua, pois seria uma expressão preconceituosa.

Segundo a publicação (p. 15), a expressão “possui origem na exploração do ouro, quando os escravizados tentavam esconder algumas pepitas debaixo da crina do animal, ou esfregavam ouro em pó em sua pele, uma tentativa de poder comprar a sua liberdade. No entanto, era pedido para que se lavassem o animal, com o objetivo de recuperar o ouro escondido.” Ainda, a cartilha recomenda que se substitua a expressão por “querer se aproveitar/se dar bem”.

A publicação carece de autor, de fontes, de referências bibliográficas, de evidências e de tudo o mais que uma obra de conteúdo tão pesado e sério deveria ter. Apesar de não contar com nada disso, trata-se de mais uma lista de censura de palavras e expressões injustamente consideradas preconceituosas.

Como alguém seria racista só por dizer “lavar a égua”? Bem, isso é algo que só a tal cartilha conseguiu entender.

O fato é que lavar a égua é uma das várias expressões da língua portuguesa cuja origem é incerta. Faltam evidências, registros, estudos… Por isso, devemos nos contentar com hipóteses etimológicas – como essa ligada ao ouro em pó deveria ser considerada.

Outra versão mais amplamente publicada em livros de curiosidades etimológicas é a ligada ao turfe. Segundo Reinaldo Pimenta, em A casa da mãe Joana (2002), Ari Riboldi, em O bode expiatório (2007), e Deonísio da Silva, em De onde vêm as palavras (2021), a égua vencedora da corrida recebia um banho de champanhe. Seria por isso que, hoje, lavar a égua significa ‘esbaldar-se’ ou ‘ganhar muito dinheiro’.

A expressão foi bem absorvida no mundo do futebol, onde passou a significar ‘ganhar o jogo com grande vantagem’. No Jornalismo, é ‘dar cobertura completa a um acontecimento, noticiando-o melhor que os outros jornais’. Suspeito eu, ainda, que lavar a égua possa ter algum vínculo etimológico com ganhar de lavada.

Bem, o caso é que, até nos livros dos três referidos fraseólogo brasileiros, não há um estudo profundo para se afirmar que lavar a égua surgiu no turfe. Faltam evidências e fontes. No mais, assim como nos dois casos anteriores, algo não está bem respondido: lavava-se a égua, mas não o cavalo?

O que posso afirmar, por meio duma modesta pesquisa minha em livros antigos no Google, é que a expressão é relativamente recente, aparecendo em 1945 no livro Dicionário da gíria brasileira, de Manuel Viotti. No mais, a expressão provavelmente tem origem no Nordeste, possivelmente no Ceará, como consta no Dicionário de termos populares: (registrados no Ceará), de Florival Seraine (1958). [Por lá, também são comuns as variantes lavar a burra e lavar a jega.] Mas como eu disse, bater o martelo e atestar o lugar da origem da expressão é impossível.

Para além disso, meus amigos, só temos especulações. Trouxe aqui duas, cuidando para enfatizar que são suposições. O grande problema é que, uma delas, é apresentada por aí como uma certeza categórica e, baseado nisso, ilogicamente exigem o abandono da expressão. Arre-égua!

Gostou? Então leia mais um tantão de histórias bacanas nos livros 100 etimologias para curtir e compartilhar e 50 pseudoetimologias para deixar de compartilhar.

📚 Referências: no texto.
🖼️ Imagem: ChatGPT (jul. 2025).
🗣️ Sugestão: Carlos Romanelli.

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