A origem da expressão ‘enquanto descansa, carrega pedras’

Eu não me canso de turistar pelas encantadoras cidades de Mariana e Ouro Preto, no coração de Minas Gerais. Eu sei que os cenários nunca mudam, mas, a cada visita, como eu é que sigo mudando, a experiência é sempre diferente.

Não me canso de ambular por aquelas ruas de pedra, por entre as igrejas barrocas, os turistas estupefatos e o cheiro de História viva. Nunca, nunquinha!

Do que eu me cansei, no entanto, eu confesso, é das explicações dos guias de turismo. 🙄 De um modo muito generalizado, são nítidos seus esforços em entremear umas pseudoetimologias de meia-tigela às explicações históricas.

Na próxima vez em que você acompanhar a explicação dalgum deles numa cidade histórica, repare: quando falam de nomes e datas e coisa e tal, quase ninguém reage; quando contam a suposta origem duma palavra ou expressão (geralmente ligada à escravidão), aí sim, os turistas se espantam e exclamam admirados 😯: “nossa, eu não sabia!”, “que legal, faz muito sentido!”, “uau, isso a gente não aprende na escola”.

Claro que não aprende, pois a maioria é pseudoetimologia – explicações baseadas no imaginário popular, sem evidência e, muitas vezes, sem lógica – ou, como gosto de chamar, etimologia de boteco. É falazada infundada para entreter leigos.

Exemplifico essa situação característica com algo que eu ouvi esses dias em Mariana. No passeio, deparamo-nos com um tipo muito comum de muro que há por lá, o muro seco, feito apenas de pedras empilhadas sem qualquer argamassa ou outro material úmido na sua montagem. Assim como aquela novela de 1992, é só pedra sobre pedra.

Só a engenharia empregada no processo de construção, a robusteza da parede que desafia os séculos e a beleza de sua geometria já bastariam para valer fotos e reações perplexas. Só o fato de que se trata duma das muitas obras erguidas às custas do trabalho cativo do período escravagista já bastaria para sacarmos um pouco da dimensão da desumanidade que tanto ocorreu no Brasil colonial e imperial. Mas nãããão… Têm de contar umas pseudo-histórias para entreter turistas. Olha só…

A guia de turismo nos falou que os escravos das minas auríferas erigiam os muros secos nos seus intervalos de descanso. Ao pararem de procurar por ouro nos túneis, tinham de carregar e empilhar pedras para fazer muros de contenção. Disse, por fim: “É daí que surgiu a expressão enquanto descansa, carrega pedras.” Eita! Voltando para minha casa, fui logo investigar.

Há dois argumentos que desmentem essa origem escravista da expressão: um de ordem prática e outro de ordem idiomática.

A ideia de que os escravos construíam muros nos períodos que seriam de descanso não faz sentido. Documentos antigos registram que os trabalhos mineralógicos demandavam, geralmente, de 8 a 12 h de trabalhos diários, com intervalo de menos de 1 h para alimentação, hidratação e descanso. Não era uma pausa concedida por caridade, mas por necessidade produtiva, o mínimo que tinha de ser oferecido para que os escravos não desmaiassem ou até mesmo sucumbissem. Um escravo sem descansos mínimos não conseguia render na mineração. É considerável, portanto, que os muros secos tivessem sido construídos como parte da jornada de trabalho escravo.

O segundo argumento que desbanca a pseudoexplicação parte dos estudos linguísticos que comparam as expressões idiomáticas da língua portuguesa às doutras línguas. O filólogo paulista Amadeu Amaral, no seu livro Tradições populares (1949), correlacionou o nosso enquanto descansa, carrega pedras com o espanhol mientras descansas, machaca granzas, que significa ‘enquanto descansas, sova granças’ (grãos de trigo remanescentes que, depois da debulha, seguem presos à casca ou à palha). É um dito popular recolhido da região de Andaluzia, na Espanha.

Com igual sentido, se diz em catalão: Mentre reposes, fes altres coses (enquanto repousas, faz outras coisas). Ah, e em latim, já se dizia modò ne cesses laborare, quiesce (desde que não pares de trabalhar, descansa). Em todas as línguas, o sentido é o de culpabilizar alguém pelo tempo ocioso, o de exigir que o sujeito seja ininterruptamente produtivo. O fato de a mensagem da expressão ocorrer em várias línguas nos indica que sua origem certamente não está na escravatura brasileira.

Mas não tem jeito, historietas desse tipo existem aos montes nas cidades turísticas do Brasil, de Norte a Sul. O pessoal da pseudoetimologia não descansa.

📚 Referências: Diccionario de la lengua castellana, por RAE (1780); e Governo dos escravos na mina de Morro Velho 1835-1888, por Alisson Eugênio, na revista Varia Historia (abr. 2014).

📸 Foto: Monique Renne/Guia de destinos (jul. 2025).

🗣️ Sugestão: Thaís Rigolon.

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